30.1.04

Kibutz, norte, Shabat
Viajo neste fim-de-semana para o norte do país. Vou encontrar o pessoal com quem vivi em 2002 no kibutz En Dor, que fica pertinho de Afula. Depois vou pra Haifa, no domingo. Não sei se terei internet antes de voltar, no domingo à noite. Por isso até a volta!

Shabat Shalom.

29.1.04

Notícia importante, notícia triste
Ouvi sobre o atentado. Certamente a esse momento o mundo inteiro já ouviu. Mas estou bem, graças a D-s. Estou em Tel Aviv indo para Haifa. É para o outro lado. Meus amigos que moram em Jerusalém estão todos bem, também. Bom dia, Brasil... Bom dia, Israel...

UPDATE
O atentado foi horrível. Pelo menos 10 pessoas morreram, número já confirmado, e 45 ficaram feridas. A explosão em um ônibus número 19, que eu usei na semana passada no dia do meu aniversário, ocorreu perto de onde mora o primeiro-ministro Ariel Sharon. E, ironia maior, acontece no dia em que voam para a Alemanha centenas de prisioneiros árabes liberados por Israel em troca de corpos e de um israelense suspeito... Quem tem um palpite sobre o que eles vão fazer bota o dedo aqui...

Estou chocado. Aqui em Israel tem outra: quando acontece um pigua, um atentado, segue-se a ele uma série de ligações para os pelefonim, os telefones celulares que cada cidadão israelense tem (às vezes têm mais de um, até). O objetivo é um só: receber boas notícias, saber que embora estivessem por ali, naquela cidade, naquele bairro, talvez naquela linha, estão bem.

É o que eu fiz, depois de ver na TV a imagem dos metais retorcidos do ônibus e dos ortodoxos buscando as partes humanas que sobraram depois do ataque. Graças a D-s, estão todos bem. Chocados, claro. Uma amiga ouviu da casa dela o barulho da explosão. Outra, chorando, disse que pega o 19 todos os dias... Assim é a vida por aqui.

28.1.04

Pertencer
Existe um sentimento entre os israelenses -que não é meu, mas que tenho notado- de como é importante fazer o Exército, os dois anos para as garotas, ou os três para os meninos, para sentir-se parte da sociedade, de fato. Ouvi certa vez que é desse período que os israelenses levam os verdadeiros amigos -aqueles para sempre- e não da escola ou da universidade, como no Brasil.

Senti isso mais forte hoje, na cerimônia do fim da tironut. As garotas fardadas que estavam lá, todas com dezoito anos ou um pouco mais, acabam de entrar para a tzavá. Estavam fechando a primeira fase de treinamentos, de quase três semanas. Eram novatas. No ato, realizado em uma base perto de Gaza sobrevoada por jatos F-16, elas não pareciam nada novatas...

A cerimônia foi bem simples -e emocionante: juramento de fidelidade por Israel, entrega de armas, tiros e uma saudação aos comandantes de cada grupamento. No fim, o hino israelense, HaTikvá ("esperança"), saído do fundo do coração daquelas recrutas.

Depois, o mais tocante, as meninas, como se ainda fossem crianças, correm para abraças as famílias, que até aquele momento só assistiam, de longe, com câmeras fotográficas e filmadoras, binóculos e lágrimas. Correm mesmo. E esses encontros, pipocados cá e lá entre a família orgulhosa e a soldada dão a exata noção do que representa essa fase.
Tironut
Tenho hoje, em Ashkelon, uma cerimônia de fim da tironut, o período de três semanas de treinamento de quem entra no Exército israelense. Uma amiga minha, Chen, que é israelense e mora em Ra'anana, me convidou! Fiquei super emocionado com a lembrança! Ouvi falar que essa cerimônia é linda! Depois conto!

26.1.04

Sofrut
Concentração, dedicação e temência a D-s. Em linhas gerais é disso que uma pessoa precisa, além de seis meses a um ano de estudos, para virar sofer stam, como o que eu entrevistei em Beitar Illit nos dois últimos dias. Com uma vantagem: ele é brasileiro, de Belém, e muito carismático e didático. Como qualquer profissional, tem que gostar do que faz -e Isaac Benzecry, esse é seu nome, gosta.

"Sofer" significa escriba. "Stam" é uma dessas abreviaturas difíceis de aprender no hebraico: refere-se a sefer Torá, tefilin e meguilá ou mezuzá, exatamente aquilo que o profissional de sofrut (escrita) redige.

Isso tudo eu aprendi com Benzecry e é o que vai rechear minha segunda matéria, para a Revista 18. O mais interessante não foi só ter acompanhado Benzecry, mas ter estado no lugar dele, tentando escrever nos pergaminhos e com a pena -conforme a tradição multimilenar- e costurando um sefer Torá nos seus rolos.

As fotos, no álbum, denunciam! Por alguns instantes, trocamos de profissão, já que temos tarefas tão parecidas: ele ia para trás do bloco e da caneta e eu, para a mesa com a pena e os pergaminhos.

A cada dia as descobertas que eu faço da minha própria religião me fascinam mais e mais.

Ah...
Coincidências não existem à toa. Elas estão lá para dizer alguma coisa, seja na exibição de um filme, seja num ônibus. O negócio é entender o recado. Ou querer entender...

25.1.04

Troca
Devia estar dormindo agora. Amanhã tenho que estar em Jerusalém, para começar a cuidar da minha segunda matéria, às 10h da manhã. Já são 4h30 nos relógios do Oriente Médio. Estarei lá, sim -não vou dormir, senão não acordo! Mas estou na internet, navegando, vendo emails, falando com amigos no MSN. Navegar é preciso, viver não é preciso!

Chegou, entre muitos outros, email do Nahum, com o texto que vai sair amanhã no Último Segundo do iG. Li e fui correndo ao Ha'aretz. A matéria de capa do site conta a história.

Em resumo: Israel e o Hizbolá fizeram um acordo de troca de prisioneiros... Não me parece muito justa e bem menos lógica. Israel vai receber um sujeito vivo e três mortos. Virão eu um avião alemão. Os mortos serão recebidos com honras militares. O vivo chega e nada... Em troca, vão de volta para seus países (muitos dos quais na lista dos indesejados do mundo civilizado) mais de 400 prisioneiros que estão em cadeiras israelenses.

Queria entender a lógica disso, no final das contas. Fica me parecendo que Israel troca mortos israelenses por alguns muitos prisioneiros árabes, criminosos, para colocá-los nas ruas e gerar mais mortos israelenses. É muito ilógico! Não entendo mesmo.

24.1.04

Prometo darte tormento, darte malos ratos, yo te prometo si me escuchas niña, darte arte... (Alejandro Sanz)
Vinte e cinco
Mas não sou mais
tão criança,
a ponto de saber tudo,
saber tudo

23.1.04

Intenso, sonhador
Love is a decision, not a feeling

Devia contar aqui, agora, algo sobre Israel, sobre o que estou vendo e vivendo. Mas faço uma pausa nos meus relatos de observador atento. Além de observar, eu sinto. Quero, por isso, escrever algo sobre intensidade. Estive falando sobre esse assunto bastante nos últimos dois dias.

Antes disso, contudo, tenho 25 anos! Mas o nome do blog vai continuar sendo o mesmo. Não quero mudar, ele tem um sentido especial para mim! Quando eu for velhinho, e se até lá eu seguir viciado nessa brincadeira, vou me lembrar da idade que foi tão especial para mim -ou quando tudo começou...!

Outra coisa: ontem, dia de apagar velas, dei um presente a Israel. Pela segunda vez aqui, doei sangue. E ganhei um presente inusitado -um sujeito, no momento que eu entrei em um ônibus a caminho da casa de uma amiga, em Jerusalém, ofereceu para pagar a minha passagem. E pagou!

Mais uma coisa, antes do tema: está ventando muito em Israel esses dias. As pessoas nem ligam mais de andar na chuva com o guarda-chuva virado! Mas às vezes é de arrepiar a espinha o barulho que o vento faz tentando passar, de lado, pelas frestas das janelas. Estou cercado de janelas!

Sobre intensidade, então, alguns comentários. Há pessoas que gostam e sabem viver a vida. Eu sou uma delas, confesso, longe da modéstia. Gosto de ter o carpe diem como princípio, como lema. Muitas vezes me arrependo por isso. Mas também sou daqueles que preferem se arrepender pelo que fizeram e não por aquilo que deixaram de fazer porque tiveram medo.

Sou muito sonhador, também. "Idealista" seria melhor termo. Sonho com os pés no chão: tenho ideais. E admiro as pessoas que, como eu, sabem o que querem da vida para o segundo seguinte -e não para dentro de 50 anos... Ou então aqueles que têm alguma vaga e remota idéia sobre onde querem chegar -mas que não se importam com os caminhos até lá.

Por outro lado, de verdade me incomodam pessoas que não vivem intensamente e não sonham... Era isso.

Shabat Shalom. É difícil não sentir o Shabat aqui. Ótimo! Fiquei em Tel Aviv, sozinho, para poder me concentrar no meu trabalho. Não tem coisa melhor, apesar da aparente contradição!

UPDATE
Até encontrei uma pizzaria aberta e, como está ventando muito lá fora, pedi para entregarem. Fiz todo o pedido em hebraico. Arrastado, é verdade, mas foi em hebraico! Demora 40 minutos! Comida é outro assunto que tem que ser bem tratado no Shabat!

21.1.04

Cigano
Como é que você pode/ viver indo embora/ sem se despedaçar? (ZD)

Sabe quando você está em um avião, numa longa viagem? Você não está nem cá, nem lá. Já saiu, mas ainda não chegou. O relógio não dá a hora certa, ficou parado no horário da origem ou já foi ajustado para o do destino... Assim eu me sinto! Como um cigano, que não faz parte de nenhum lugar. "Estou" cigano.

Explico: estou, aqui em Israel, em casa. Sinto-me assim, pertinente. Passeio pelas ruas com a tranqüilidade de quem as conhece não como um turista, que vaga olhando tudo com espanto e surpresa, mas com a certeza de saber por onde vou, embora o idioma, a sinalização, as pessoas etc sejam estranhos. Só que não faço parte daqui. Tratam-me, claro, como turista que sou -ainda que eu me esforce para não parecer!

Em um mês, pouco mais, volto pro Brasil. E de lá já não me sinto parte -sinto dizer. Ao contrário do que acontece aqui, ando nas ruas de São Paulo assustado, ameaçado, amedrontado. Na medida do possível 'tá dando pra se viver, na cidade de São Paulo... Mas, é muita ironia, tenho que voltar pra lá. E não quero, não quero mesmo. Mas preciso, eu sei. E volto, claro.

Mas estou em um avião. A caminho de Israel, numa viagem que mais parece de navio (de tapete voador, talvez...). Já saí, em pensamento, do Brasil. Faz tempo. Lá, quem me conhece, sabe que eu quero partir. Aqui, idem, sabem que eu quero vir. Mas sabem também que eu não cheguei... "Estou" cigano. Estou em um avião que não chega.

E amanhã faço 25 anos...

Se você vai por muito tempo,/ você nunca volta.../
Você retorna, você contorna,/ mas não tem volta.../ Volta...

(Zélia Duncan)

20.1.04

Nasceu
Nasceu! Meu primeiro filho israelense! E é um menino! Um texto, lindo, com quatro quilos (páginas), que deu um puta trabalho e consumiu todo o dia para o parto. Valeu a pena. Vejamos agora o que vai dizer a editora...! A matéria deve sair na próxima edição da revista Possível, em fevereiro. Aguardem! Preciso cuidar das fotos...!

Um pouco de poesia
No quiero paz, no hay paz,
quiero mi soledad.
Quiero mi corazón desnudo
para tirarlo a la calle,
quiero quedarme sordomudo.
Que nadie me visite,
que yo no mire a nadie,
y que si hay alguien, como yo, con asco,
que se lo trague.
Quiero mi soledad,
no quiero paz, no hay paz.

(Jaime Sabines)

Vivência e leitura
Uma pessoa vive, viaja, conhece culturas e pessoas diferentes, aprende. Uma outra pessoa , viaja apenas entre as páginas de livros, mas igualmente conhece culturas diferentes, aprende. A primeira tem o tempero para a vida. A segunda, a farinha do bolo. Sem farinha não há bolo. E ninguém come tempero sozinho.
Fotos
Há mais fotos no álbum!

19.1.04

Festa

Completo 25 na quinta. Vai ter festa.
Papas na língua
Aprendi hoje uma lição que todo jornalista deveria saber. Para entender o que vai pela mente de um povo há que se ouvir suas crianças. Eu conversei hoje algumas crianças, árabes e judias, de 13 anos, e ouvi coisas de sensacionais a surpreendentes, de assutadoras a animadoras. Aprendi a lição na marra. Não me arrependo.

Fui acompanhar de perto um projeto do Givat Haviva, do qual falei aqui outro dia, de juntar alunos de várias idades em escolas árabes e judaicas de Israel. Se vai funcionar, se vai ajudar a diminuir o preconceito e a derrubar paradigmas, ninguém sabe. Nem eu, nem as crianças que eu ouvi, nem mesmo os profissionais que se dedicam a isso. Mas a semente está sendo plantada.

Ouvir crianças é importante porque elas não têm papas na língua, como se diz. Falam tudo, o que pensam, sem barreiras, sem medo, sem inibição e com sentimento. É verdade, eu bem notei hoje, que crianças judias falam mais e têm mais o que dizer do que as crianças árabes. Pode ser uma questão cultural, de educação -mas também pode ser só recato. Duvido desta última possibiidade, contudo.

Cercado de crianças, com bloco e caneta na mão, ouvi coisas como uma que marcou muito. Elas também me entrevistaram, é verdade. Criança é curiosa por definição, também. E perguntaram se eu sou judeu. E uma delas, lá no meio, uma das mais falantes, perguntou se eu acredito em D-s. Eu disse que sim. Disse "betach!", na verdade, que quer dizer "claro!".

Ela respondeu, com a simplicidade própria de uma adolescente -e uma adolescente israelense não tem nada de diferente de uma adolescente brasileira (a não ser a mania de celular na mão e da calcinha sempre aparecendo)- que ela não. Perguntei a razão. E ela me derrubou: "com tantas crianças inocentes morrendo aqui, como pode existir um deus"?

Agora preciso transformar tudo isso e tudo que vi ontem na sede do Givat Haviva -não foi pouco, passei o dia todo lá- em um texto de quatro páginas para a revista Possível. A verdade é que eu poderia escrever um livro a respeito!

Quote
Quando foi a última vez que você fez algo pela primeira vez?
Errata

17.1.04

Se foi o 501
Escrevo de Raanana, onde acabei ficando depois de vir visitar amigos porque perdi o ultimo onibus para Tel Aviv... Acontece!

16.1.04

Descanso
D-s criou os céus e a Terra, o dia e a noite,
as plantas e os animais e, assim por diante,
durante cada dia até chegar no sexto dia.
(...)
E ao final do sexto dia criou D-s o sétimo, o
Shabat, para o homem descansar.


O Shabat tem, para mim, um sabor especial. No Brasil, cada sexta-feira é dia de ir à sinagoga (coisa que eu nunca conseguiria fazer em qualquer outra ocasião), de rezar ouvindo de olhos fechados o chazan (cantor litúrgico) entoando as rezas do descanso, e de encontrar as pessoas que se perdem durante a semana.

É verdade que os meus shabatot estão longe do que eu considero ideal (mas sempre estão distantes os nossos ideais!). O meu ideal para o dia do descanso é passá-lo em família, com agitação contraditória, comida da avó, fofocas sobre os primos, revelações de última hora. E, depois disso tudo, esmoecer cansado diante das velas que resistem e parecem só se apagar sob mágica...

Em Israel, contudo, o gosto do Shabat é diferente, mais "amargazedo", o gosto da imposição religiosa minoritária sobre uma maioria laica. É assim, se tratando de um Estado religioso, afinal. Durante o Shabat a rotina do país muda radicalmente. Tudo fica mais lento, mais silencioso, mais calmo.

Não reclamaria se, claro, tivesse um carro e não precisasse depender, para ir e vir, de condução pública -que pára entre a primeira estrela da sexta e a primeira do sábado. Ou se eu tivesse já o costume de me preparar para o descanso que eu mesmo não faço... Ou se eu não ficasse, no dia que é importante para quem o segue, largado na cidade laica e urbanóide -coisa que não combina com o Shabat.

Mas eu não reclamo, mesmo assim. Shabat é um dia especial.
Shabat Shalom le culam.

15.1.04

Porta-voz
Estive ontem com um soldado israelense que trabalha no escritório do porta-voz do Exército. Preciso dizer que ele tem apenas 20 anos e tem na tzahal (o Exército israelense) posição séria e de autonomia. Tivemos um longo papo e a história dele é um tanto incomum e interessante: norte-americano da Califórnia, fez aliah e tem um perfil baixo para o Exército, porque teve na infância doença de intestino. Conclusão: não poderia ser aceito. Mas como queria, foi como voluntário mesmo -para dois anos. E lá está, numa posição que muitos (eu inclusive) querem!

ERRATA
O Michel esteve comigo e com o soldado! Faltou registrar... Na verdade a idéia de convidar o cara pra bater papo foi dele! Atendendo a pedidos e corrigindo a derrapada, eis a errata! Quem viu a foto já sabia!

Mudança de tempo
Faz calor em Israel, em pleno inverno! É verdade que não é o calor ao qual eu me acostumei vivendo aqui, no verão de quase 50 graus... Mas faz sol lá fora, ontem eu saí sem blusa e... bom, Israel tem outra cara com bom tempo!

Tem uma coisa que só se entende em Israel, a propósito: o conceito de degradê! No finzinhoi do dia, quando se caminha na rua com tempo bom como o de hoje, pode-se ver uma escala de tons de azul no céu, do mais claro perto do horizonte até o mais próximo do preto, no alto. Algo lindo, lindo.

Pequenos prazeres -série gastronomia
"Tzabar" é a marca do melhor humus que eu já comi em Israel. É vendido em supermercados e a etiqueta diz assim: "raq humus" (apenas humus). Existem diversas apresentações, mas o humus puro é o melhor. Tzabar é também o nome de uma fruta e como se chamam os israelenses: como a tal fruta, eles são espinhosos por fora e doces por dentro!

13.1.04

Sionismo e sionistas -coisas raras
Quando eu morei em Israel, entre abril e outubro de 2002, muitas coisas me chateavam entre os olim chadashim (novos imigrantes) que viviam comigo no kibutz. Era um grupo grande, de cerca de 40 pessoas. E muitos deles simplesmente não tinham vergonha de dizer que estavam no país só pelo dinheiro oferecido a quem chega -especialmente alguns russos e argentinos. Eu acreditava que não existe mais sionismo...

Hoje mesmo, quando um sujeito me perguntou a razão pela qual quero fazer aliah e ouviu que por sionismo, ele riu na minha cara...!

Mas por acaso, muito por acaso, conheci uma pessoa que me fez mudar de opinião: existe sim idealismo sionista, como o meu! Fui à Universidade de Tel Aviv para assistir à projeção de "Eu, tu, eles", que rolou depois de uma palestra (em hebraico, claro, embora 70% do público falasse português!) de um israelense especialista em Brasil...

A sionista que conheci hoje fez aliah há dez meses. Mora nas meonot (apartamentos da universidade) e estuda na mechiná (preparatório para quem pretende entrar em uma faculdade israelense). Está em Israel por idealismo mesmo, e depois do filme tivemos um longo papo sobre aliah.

Nem tudo está perdido, afinal!

Recado
Cla, Ka e Poconautas: o nome Débora Blatt lhes é familiar? É dela que eu falo neste post! Que mundo pequeno esse nosso, né? Quando a encontrar de novo vou tirar fotos para mandar pra vocês! E ela mandou beijos, disse que vai escrever!

Mero acaso
Vale a pena contar que fui ver o filme que me levou a conhecer a Débora a convite de um cara, também brasileiro, que conheci por acaso, outro dia, num ponto de ônibus quando ia para Raanana... Quando ele me perguntou algo em hebraico e eu respondi que falasse em inglês, ele perguntou de onde eu sou -e descobrimos a coincidência!

12.1.04

Promessa
Amanhã coloco fotos nos álbuns e no flog. Tenho várias delas, de Beitar Illit, daqui de Tel Aviv, de Raanana, de Jerusalém, dos meus passeios e das pessoas que encontrei por aí...

Promessa é dívida. Amanhã pago. Sem falta!

UPDATE
Dívida paga! As fotos já estão no flog israelense e no álbum que estou fazendo daqui! Coloquei algumas no álbum principal, também, de quando ainda estava no Brasil!
Fascinação
Existe um fascínio provocado pelas simples palavras "sou do Brasil", "sou brasileiro" aqui em Israel. Não importa com quem se fala: taxistas, vendedores no shuk (mercado), outros turistas, árabes e judeus. Imediatamente se lembrarão do Ronaldinho, do samba, do Carnaval e dessas coisas que quem não é brasileiro pensa que só elas existem no país tropical...

Mas existe alguém em quem essa fascinação é maior, é enorme: as etíopes. É brilho nos olhos! Existem muitos etíopes vivendo aqui, como israelenses, judeus, que vieram para cá em megaoperações, fazendo de Israel o único país que tirou negros da África não para fazê-los escravos, mas para torná-los livres...

E se, numa conversa com uma etíope, você revelar que é brasileiro, vai entender do que eu falo! Já passei por isso duas vezes. Uma delas, ano passado, doando sangue numa unidade do Maguen David Adom. Outra hoje, na tachaná mercazit de Tel Aviv, comprando uma mochila. Elas são diretas: pedem em casamento, querem ir pro Brasil, se mostram indignadas pelo fato de não estarmos casados, não termos namorada...!

Eu aceitei a proposta, hoje!

11.1.04

Sobre Jerusalem e sobre magica
Tenho ainda muitas das duvidas do post anterior. Mas tirei uma duvida que tinha: sobre a magica que eh estar em Jerusalem. Resolvi ficar por aqui mesmo depois que voltei de Beitar Illit. Fui comer uma shwarma, passear pela cidade, ver os yerushalmis (deve ser assim...!) e sentir o ar da cidade.

Mas eu nao tinha onde ficar, e isso eh sempre um problema. Entao resolvi, antes de mais nada, dar um pulo no Kotel, o Muro Ocidental, Western Wall... Uma vez, passeando pela cidade velha, fui abordado por ortodoxos que me ofereceram um lugar de graca pra ficar. Mas naquela ocasiao eu nao precisava... De repente, teria a mesma sorte.

Nao foi assim, eh verdade... Mas saindo do Kotel eu andei pelo bairro judeu e de repente ouvi musica. Muita musica, e pelo burburinho imaginei que havia muita gente. Nao me enganei e cheguei ate o Cardo, o que sobrou de uma rua que foi principal na epoca dos romanos. Cheguei no final de uma apresentacao musical. As pessoas estavam comendo pizza e recolhendo os instrumentos.

De repente, quinze ou vinte caras sairam andando e eu resolvi segui-los. Entrei em uma yeshiva, onde uns quarenta, 50 outros rapazes estudavam. Perguntei a um deles em ingles se seria possivel dormir por ali. Rapidamente ele falou com outro cara que, munido de um celular, resolveu tudo!

E a magica de Jerusalem funcionou: estou agora, quase meia-noite de segunda-feira, em uma espécie de albergue para rapazes judeus, hospedado de graca, e amanha vou acordar a metros do Kotel, para onde vou, claro, logo que acordar! Foi assim, simplesmente: ouvi musica, segui a musica, segui a multidao e fui recebido como se me conhecessem ha anos...!

Eh ou nao eh magica, afinal!?
Assim eh a vida
Tento entender algumas coisas, dentro de um onibus com janelas blindadas atravessando a fronteira entre Israel e o que um dia devera ser o Estado palestino. Estava voltando de Beitar Illit, que fica incrustrada no meio da Cisjordania. Tomei o onibus lotado de ortodoxos dentro do assentamento, e eh so la que ele para. Depois, so no destino, em Jerusalem.

No caminho, tento entender algumas coisas. Tento entender, por exemplo, por que as pessoas nao entendem a necessidade de um muro de defesa entre os dois territorios. Tento entender, ao mesmo tempo, a idiotice de precisar viver com um Exercito de Defesa. Na fronteira, cujo checkpoint provoca um congestionamento monstro, dois soldados provavelmente mais novos que eu fazem cara feia e inspecionam quem passa, um a um.

Vive-se em Israel, ou no que um dia foi amplamente chamado de "Palestina", simplesmente, com essas coisas. Vive-se bem, eh verdade, sem grandes dramas. Mas os olhos juvenis dos soldados de vez em quando falham (se nao os deles, os de qualquer outro, mais distraido, menos atento ou simplesmente mais jovem). E ai acontecem os piguim, os atentados, fatalidades.

Na entrada da tachana mercazit, a estacao central de onibus, onde estou, em Jerusalem, outra checagem, que se mal feita pode permitir a passagem de terroristas. Aqui, alem dos olhos atentos de guardas, ha o raio-X, que nao deixa nada passar. Mesmo assim, ha aglomeracoes na porta, que da pra rua, com tanta gente fugindo do frio ou em busca do onibus para voltar pra casa.

Dentro da estacao, se alguem, distraido ou mal-intencionado, esquece uma mochila, uma maleta, em poucos segundos policiais estarao de olho, e avisos pelo sistema interno de microfones tentarao localizar o dono. Se ninguem aparecer, a medida eh extrema: explode-se o objeto esquecido. Nao se pode dar chance para o azar...

A vida eh assim... E segue, com cafes cheios de gente, com a musica nostalgica produzida e ouvida em Israel, com o jeitinho israelense das garotas na rua, com o desfile colorido de soldados com seu uniforme verde, garotos novos com gel no cabelo e celular na mao, e de meninas ortodoxas com suas saias compridas. Assim eh composto o arco-iris do inverno israelense.

8.1.04

Ortodoxia
Vou amanhã, sexta-feira, para Beitar Illit, cidade localizada no meio da Cisjordânia -o que a torna um assentamento judaico em meio a território árabe. Mais que isso, Beitar Illit é cidade de judeus ultra-ortodoxos, Chabad, seguidores de todas as regras do judaísmo -como o respeito pelo Shabat, que começa amanhã por volta de 16h. Por isso vou ficar alegremente isolado até motzei Shabat, no início da noite de sábado.

Desde já Shabat Shalom. Na volta conto como foi.
Saúde em Israel: cara, mas eficiente
Conheci algo de Israel que ainda não conhecia: o sistema de saúde. Meu estado piorou e os médicos decidiram pela minha internação... E lá fui eu anteontem para uma batelada de exames e interrogatórios no Ichilov, um dos melhores hospitais de Tel Aviv.

Ontem, por fim, me internaram. É verdade que embora eu etivesse em um hospital público o atendimento é de primeira. Nada que se compare com os nossos hospitais brasileiros com pacientes pelos corredores, sujos, com atendimento precário e falta de dinheiro. Aliás, dinheiro é um tema importante quando se fala de hospitais em Israel: a saúde é muito cara...

Resumindo a história: já estou melhor (tanto que amanhã vou viajar) e passei "só" uma noite internado. Não foi a melhor noite da minha vida, mas longe de também ter sido a pior! Isso porque fiquei em uma enfermaria com outros três pacientes -todos com pelo menos o triplo da minha idade!

Quando fazia a entrevista de praxe, em hebraico, eu já na cama, a enfermeira disse que faria uma pergunta inglês e que eu não me ofendesse. Então escreveu em um pedaço de papel: are you homossexual? Respondi que não, claro, e achei graça! É que vindo do Brasil as suspeitas de vida promíscua são grandes -depois perguntaram se eu sempre uso camisinha...!

6.1.04

Compras
(Porque chamar isso de "pequenos prazeres" é sacanagem!)
Quando estava em Jerusalém comprei uma coisa muito legal: uma cueca! Bom, é claro que não se trata de uma cueca comum! Ela é do tipo boxer e vem com uma inscrição na frente:

I'M JEWISH.
WANNA CHECK?


Como pouca gente vai ter a chance de ver (e de checar...!), deixo registrada a compra aqui mesmo! Tem coisas que só em Israel, mesmo... Ah! Também comprei um moleton da minha futura universidade!

5.1.04

Vale a pena ver de novo, no ano novo
Sem medo de ser repetitivo, e por isso já sendo, vou deixar aqui o link daquele vídeo sensacional a que pudemos assistir aqui há mais ou menos seis meses. Ele tem uma história, que o Michel contou, e que reproduzo abaixo. Vale a pena ver de novo, especialmente no começo de um novo ciclo. Para ver, basta clicar com o botão direito, escolher "Salvar destino como..." e descompactar o arquivo.

A história: O real criador, produtor e editor desse vídeo se chama Cláudio Grillo Filho, e atualmente trabalha na área de comunicação e registros audiovisuais do São Paulo Futebol Clube. Ele inclusive utiliza esse vídeo no ônibus, quando o time está a caminho dos jogos. Uma curiosidade: originalmente, a idéia do vídeo era em português, e só depois acabou sendo feito em inglês. Muita gente pensa que é americano com legendas, mas na verdade isso foi proposital. Fazia parte de uma pesquisa do Cláudio, que é pesquisador na área de Psicologia da Imagem.
Mãos à obra
Passada a ressaca de fim de ano e a turbulência do resfriado (ainda não estou 100%, mas a febre já passou e eu já me sinto inteiro de novo!) preciso começar a trabalhar! Afinal, para isso vim!

A primeira matéria que vou fazer, para a revista Possível, vai tratar do Givat Haviva, centro educational, de pesquisa e documentação criado em 1949, bem pouco tempo depois do estabelecimento do Estado de Israel.

É lá que se faz "educação para a paz". É á que são tratados temas como paz, democracia, coexistência, tolerância e solidariedade social. Mais informações na próxima edição da revista ou quando eu avisar!

4.1.04

Identidade
Não há lugar no mundo onde se possa entender o significado de "identidade" como em Israel. Senti isso desde que cheguei aqui, caminhando pelas ruas, conversando em diversos idiomas com as pessoas e especialmente na festa da virada, porque eu tinha comigo uma bandeira gigante do Brasil (emprestada pelo Michel) que chamava a atenção de todo mundo.

É claro que somos mais nacionalistas e patriotas fora do nosso país do que lá mesmo. Eu não me vejo enrolado em uma bandeira do Brasil em uma festa de reveillon passada em São Paulo, por exemplo. Pareceria um total idiota. Aqui, ao contrário, o efeito foi sensacional. Duas razões: 1) os israelenses amam o Brasil e 2) quem não é israelense também!

Por causa da bandeira conheci duas garotas portuguesas, de Lisboa, que estavam na festa. Uma delas está vivendo em Paris, ironicamente cursando o programa Erasmus de intercâmbio entre países europeus, do qual se trata o filme Albergue espanhol, sobre o qual eu já tanto falei...

Por causa da bandeira conhecemos uma americana, norte-americana, cujos pais são brasileiros. E ela disse, entre embriagada pela bebida barata (na qualidade, não no preço!) da festa e a excitação pelo ano novo, que adora essa mania brasileira de andarmos adornados com "coisas brasileiras"!!

Por causa da bandeira alguns israelenses que passaram pelo Brasil quando terminaram o Exército vieram falar conosco! E por causa não só da bandeira, mas da empolgação característica dos brasileiros, no momento da virada estávamos ao vivo aparecendo na TV para todo o país, gritando, pulando, nos abraçando, fazendo farra!

E nem éramos todos brasileiros! Havia brasileiros da Argentina, da Venezuela, do Chile, do Uruguai... Todos querendo se enrolar na bandeira verde-amarela!
Frio e resfriado
As duas noites que eu dormi em Jerusalém foram noites bem frias. Eu não tinha ido preparado pra dormir lá, mas acabei ficando. Dormi no chão do quarto de uns amigos, no Crowne Plaza... E na primeira noite não tinha nem cobertor... Conclusão: febre de quase 40 graus, tosse, resfriado, dores pelo corpo inteiro, recomendação do médico de ficar uma semana em repouso e um verdadeiro coquetel de medicamentos... Já estou melhor, mas passei maus bocados desde que voltei...