30.1.04

Kibutz, norte, Shabat
Viajo neste fim-de-semana para o norte do país. Vou encontrar o pessoal com quem vivi em 2002 no kibutz En Dor, que fica pertinho de Afula. Depois vou pra Haifa, no domingo. Não sei se terei internet antes de voltar, no domingo à noite. Por isso até a volta!

Shabat Shalom.

29.1.04

Notícia importante, notícia triste
Ouvi sobre o atentado. Certamente a esse momento o mundo inteiro já ouviu. Mas estou bem, graças a D-s. Estou em Tel Aviv indo para Haifa. É para o outro lado. Meus amigos que moram em Jerusalém estão todos bem, também. Bom dia, Brasil... Bom dia, Israel...

UPDATE
O atentado foi horrível. Pelo menos 10 pessoas morreram, número já confirmado, e 45 ficaram feridas. A explosão em um ônibus número 19, que eu usei na semana passada no dia do meu aniversário, ocorreu perto de onde mora o primeiro-ministro Ariel Sharon. E, ironia maior, acontece no dia em que voam para a Alemanha centenas de prisioneiros árabes liberados por Israel em troca de corpos e de um israelense suspeito... Quem tem um palpite sobre o que eles vão fazer bota o dedo aqui...

Estou chocado. Aqui em Israel tem outra: quando acontece um pigua, um atentado, segue-se a ele uma série de ligações para os pelefonim, os telefones celulares que cada cidadão israelense tem (às vezes têm mais de um, até). O objetivo é um só: receber boas notícias, saber que embora estivessem por ali, naquela cidade, naquele bairro, talvez naquela linha, estão bem.

É o que eu fiz, depois de ver na TV a imagem dos metais retorcidos do ônibus e dos ortodoxos buscando as partes humanas que sobraram depois do ataque. Graças a D-s, estão todos bem. Chocados, claro. Uma amiga ouviu da casa dela o barulho da explosão. Outra, chorando, disse que pega o 19 todos os dias... Assim é a vida por aqui.

28.1.04

Pertencer
Existe um sentimento entre os israelenses -que não é meu, mas que tenho notado- de como é importante fazer o Exército, os dois anos para as garotas, ou os três para os meninos, para sentir-se parte da sociedade, de fato. Ouvi certa vez que é desse período que os israelenses levam os verdadeiros amigos -aqueles para sempre- e não da escola ou da universidade, como no Brasil.

Senti isso mais forte hoje, na cerimônia do fim da tironut. As garotas fardadas que estavam lá, todas com dezoito anos ou um pouco mais, acabam de entrar para a tzavá. Estavam fechando a primeira fase de treinamentos, de quase três semanas. Eram novatas. No ato, realizado em uma base perto de Gaza sobrevoada por jatos F-16, elas não pareciam nada novatas...

A cerimônia foi bem simples -e emocionante: juramento de fidelidade por Israel, entrega de armas, tiros e uma saudação aos comandantes de cada grupamento. No fim, o hino israelense, HaTikvá ("esperança"), saído do fundo do coração daquelas recrutas.

Depois, o mais tocante, as meninas, como se ainda fossem crianças, correm para abraças as famílias, que até aquele momento só assistiam, de longe, com câmeras fotográficas e filmadoras, binóculos e lágrimas. Correm mesmo. E esses encontros, pipocados cá e lá entre a família orgulhosa e a soldada dão a exata noção do que representa essa fase.
Tironut
Tenho hoje, em Ashkelon, uma cerimônia de fim da tironut, o período de três semanas de treinamento de quem entra no Exército israelense. Uma amiga minha, Chen, que é israelense e mora em Ra'anana, me convidou! Fiquei super emocionado com a lembrança! Ouvi falar que essa cerimônia é linda! Depois conto!

26.1.04

Sofrut
Concentração, dedicação e temência a D-s. Em linhas gerais é disso que uma pessoa precisa, além de seis meses a um ano de estudos, para virar sofer stam, como o que eu entrevistei em Beitar Illit nos dois últimos dias. Com uma vantagem: ele é brasileiro, de Belém, e muito carismático e didático. Como qualquer profissional, tem que gostar do que faz -e Isaac Benzecry, esse é seu nome, gosta.

"Sofer" significa escriba. "Stam" é uma dessas abreviaturas difíceis de aprender no hebraico: refere-se a sefer Torá, tefilin e meguilá ou mezuzá, exatamente aquilo que o profissional de sofrut (escrita) redige.

Isso tudo eu aprendi com Benzecry e é o que vai rechear minha segunda matéria, para a Revista 18. O mais interessante não foi só ter acompanhado Benzecry, mas ter estado no lugar dele, tentando escrever nos pergaminhos e com a pena -conforme a tradição multimilenar- e costurando um sefer Torá nos seus rolos.

As fotos, no álbum, denunciam! Por alguns instantes, trocamos de profissão, já que temos tarefas tão parecidas: ele ia para trás do bloco e da caneta e eu, para a mesa com a pena e os pergaminhos.

A cada dia as descobertas que eu faço da minha própria religião me fascinam mais e mais.

Ah...
Coincidências não existem à toa. Elas estão lá para dizer alguma coisa, seja na exibição de um filme, seja num ônibus. O negócio é entender o recado. Ou querer entender...

25.1.04

Troca
Devia estar dormindo agora. Amanhã tenho que estar em Jerusalém, para começar a cuidar da minha segunda matéria, às 10h da manhã. Já são 4h30 nos relógios do Oriente Médio. Estarei lá, sim -não vou dormir, senão não acordo! Mas estou na internet, navegando, vendo emails, falando com amigos no MSN. Navegar é preciso, viver não é preciso!

Chegou, entre muitos outros, email do Nahum, com o texto que vai sair amanhã no Último Segundo do iG. Li e fui correndo ao Ha'aretz. A matéria de capa do site conta a história.

Em resumo: Israel e o Hizbolá fizeram um acordo de troca de prisioneiros... Não me parece muito justa e bem menos lógica. Israel vai receber um sujeito vivo e três mortos. Virão eu um avião alemão. Os mortos serão recebidos com honras militares. O vivo chega e nada... Em troca, vão de volta para seus países (muitos dos quais na lista dos indesejados do mundo civilizado) mais de 400 prisioneiros que estão em cadeiras israelenses.

Queria entender a lógica disso, no final das contas. Fica me parecendo que Israel troca mortos israelenses por alguns muitos prisioneiros árabes, criminosos, para colocá-los nas ruas e gerar mais mortos israelenses. É muito ilógico! Não entendo mesmo.

24.1.04

Prometo darte tormento, darte malos ratos, yo te prometo si me escuchas niña, darte arte... (Alejandro Sanz)
Vinte e cinco
Mas não sou mais
tão criança,
a ponto de saber tudo,
saber tudo

23.1.04

Intenso, sonhador
Love is a decision, not a feeling

Devia contar aqui, agora, algo sobre Israel, sobre o que estou vendo e vivendo. Mas faço uma pausa nos meus relatos de observador atento. Além de observar, eu sinto. Quero, por isso, escrever algo sobre intensidade. Estive falando sobre esse assunto bastante nos últimos dois dias.

Antes disso, contudo, tenho 25 anos! Mas o nome do blog vai continuar sendo o mesmo. Não quero mudar, ele tem um sentido especial para mim! Quando eu for velhinho, e se até lá eu seguir viciado nessa brincadeira, vou me lembrar da idade que foi tão especial para mim -ou quando tudo começou...!

Outra coisa: ontem, dia de apagar velas, dei um presente a Israel. Pela segunda vez aqui, doei sangue. E ganhei um presente inusitado -um sujeito, no momento que eu entrei em um ônibus a caminho da casa de uma amiga, em Jerusalém, ofereceu para pagar a minha passagem. E pagou!

Mais uma coisa, antes do tema: está ventando muito em Israel esses dias. As pessoas nem ligam mais de andar na chuva com o guarda-chuva virado! Mas às vezes é de arrepiar a espinha o barulho que o vento faz tentando passar, de lado, pelas frestas das janelas. Estou cercado de janelas!

Sobre intensidade, então, alguns comentários. Há pessoas que gostam e sabem viver a vida. Eu sou uma delas, confesso, longe da modéstia. Gosto de ter o carpe diem como princípio, como lema. Muitas vezes me arrependo por isso. Mas também sou daqueles que preferem se arrepender pelo que fizeram e não por aquilo que deixaram de fazer porque tiveram medo.

Sou muito sonhador, também. "Idealista" seria melhor termo. Sonho com os pés no chão: tenho ideais. E admiro as pessoas que, como eu, sabem o que querem da vida para o segundo seguinte -e não para dentro de 50 anos... Ou então aqueles que têm alguma vaga e remota idéia sobre onde querem chegar -mas que não se importam com os caminhos até lá.

Por outro lado, de verdade me incomodam pessoas que não vivem intensamente e não sonham... Era isso.

Shabat Shalom. É difícil não sentir o Shabat aqui. Ótimo! Fiquei em Tel Aviv, sozinho, para poder me concentrar no meu trabalho. Não tem coisa melhor, apesar da aparente contradição!

UPDATE
Até encontrei uma pizzaria aberta e, como está ventando muito lá fora, pedi para entregarem. Fiz todo o pedido em hebraico. Arrastado, é verdade, mas foi em hebraico! Demora 40 minutos! Comida é outro assunto que tem que ser bem tratado no Shabat!

21.1.04

Cigano
Como é que você pode/ viver indo embora/ sem se despedaçar? (ZD)

Sabe quando você está em um avião, numa longa viagem? Você não está nem cá, nem lá. Já saiu, mas ainda não chegou. O relógio não dá a hora certa, ficou parado no horário da origem ou já foi ajustado para o do destino... Assim eu me sinto! Como um cigano, que não faz parte de nenhum lugar. "Estou" cigano.

Explico: estou, aqui em Israel, em casa. Sinto-me assim, pertinente. Passeio pelas ruas com a tranqüilidade de quem as conhece não como um turista, que vaga olhando tudo com espanto e surpresa, mas com a certeza de saber por onde vou, embora o idioma, a sinalização, as pessoas etc sejam estranhos. Só que não faço parte daqui. Tratam-me, claro, como turista que sou -ainda que eu me esforce para não parecer!

Em um mês, pouco mais, volto pro Brasil. E de lá já não me sinto parte -sinto dizer. Ao contrário do que acontece aqui, ando nas ruas de São Paulo assustado, ameaçado, amedrontado. Na medida do possível 'tá dando pra se viver, na cidade de São Paulo... Mas, é muita ironia, tenho que voltar pra lá. E não quero, não quero mesmo. Mas preciso, eu sei. E volto, claro.

Mas estou em um avião. A caminho de Israel, numa viagem que mais parece de navio (de tapete voador, talvez...). Já saí, em pensamento, do Brasil. Faz tempo. Lá, quem me conhece, sabe que eu quero partir. Aqui, idem, sabem que eu quero vir. Mas sabem também que eu não cheguei... "Estou" cigano. Estou em um avião que não chega.

E amanhã faço 25 anos...

Se você vai por muito tempo,/ você nunca volta.../
Você retorna, você contorna,/ mas não tem volta.../ Volta...

(Zélia Duncan)

20.1.04

Nasceu
Nasceu! Meu primeiro filho israelense! E é um menino! Um texto, lindo, com quatro quilos (páginas), que deu um puta trabalho e consumiu todo o dia para o parto. Valeu a pena. Vejamos agora o que vai dizer a editora...! A matéria deve sair na próxima edição da revista Possível, em fevereiro. Aguardem! Preciso cuidar das fotos...!

Um pouco de poesia
No quiero paz, no hay paz,
quiero mi soledad.
Quiero mi corazón desnudo
para tirarlo a la calle,
quiero quedarme sordomudo.
Que nadie me visite,
que yo no mire a nadie,
y que si hay alguien, como yo, con asco,
que se lo trague.
Quiero mi soledad,
no quiero paz, no hay paz.

(Jaime Sabines)

Vivência e leitura
Uma pessoa vive, viaja, conhece culturas e pessoas diferentes, aprende. Uma outra pessoa , viaja apenas entre as páginas de livros, mas igualmente conhece culturas diferentes, aprende. A primeira tem o tempero para a vida. A segunda, a farinha do bolo. Sem farinha não há bolo. E ninguém come tempero sozinho.
Fotos
Há mais fotos no álbum!

19.1.04

Festa

Completo 25 na quinta. Vai ter festa.
Papas na língua
Aprendi hoje uma lição que todo jornalista deveria saber. Para entender o que vai pela mente de um povo há que se ouvir suas crianças. Eu conversei hoje algumas crianças, árabes e judias, de 13 anos, e ouvi coisas de sensacionais a surpreendentes, de assutadoras a animadoras. Aprendi a lição na marra. Não me arrependo.

Fui acompanhar de perto um projeto do Givat Haviva, do qual falei aqui outro dia, de juntar alunos de várias idades em escolas árabes e judaicas de Israel. Se vai funcionar, se vai ajudar a diminuir o preconceito e a derrubar paradigmas, ninguém sabe. Nem eu, nem as crianças que eu ouvi, nem mesmo os profissionais que se dedicam a isso. Mas a semente está sendo plantada.

Ouvir crianças é importante porque elas não têm papas na língua, como se diz. Falam tudo, o que pensam, sem barreiras, sem medo, sem inibição e com sentimento. É verdade, eu bem notei hoje, que crianças judias falam mais e têm mais o que dizer do que as crianças árabes. Pode ser uma questão cultural, de educação -mas também pode ser só recato. Duvido desta última possibiidade, contudo.

Cercado de crianças, com bloco e caneta na mão, ouvi coisas como uma que marcou muito. Elas também me entrevistaram, é verdade. Criança é curiosa por definição, também. E perguntaram se eu sou judeu. E uma delas, lá no meio, uma das mais falantes, perguntou se eu acredito em D-s. Eu disse que sim. Disse "betach!", na verdade, que quer dizer "claro!".

Ela respondeu, com a simplicidade própria de uma adolescente -e uma adolescente israelense não tem nada de diferente de uma adolescente brasileira (a não ser a mania de celular na mão e da calcinha sempre aparecendo)- que ela não. Perguntei a razão. E ela me derrubou: "com tantas crianças inocentes morrendo aqui, como pode existir um deus"?

Agora preciso transformar tudo isso e tudo que vi ontem na sede do Givat Haviva -não foi pouco, passei o dia todo lá- em um texto de quatro páginas para a revista Possível. A verdade é que eu poderia escrever um livro a respeito!

Quote
Quando foi a última vez que você fez algo pela primeira vez?