30.4.05

E meu irmão está falando hebraico
Quinta-feira foi dia de visita da família. Meu pai, com a mulher e meu irmão de três anos vieram para Jerusalém, passar o dia (e uma noite, na qual acabei dormindo no sofá!). A maior surpresa, depois de quase um mês (ou terá sido mais?) sem ver meu irmão foi ouvi-lo pronunciando palavras em hebraico e entendendo muito!

Quem dera ter de novo três anos para aprender hebraico! Amanhã o chag acaba. Na segunda-feira volto à minha rotina normal, mas um pouco alterada, porque tenho trabalho novo. Estudo de manhã, jornal à tarde e trabalho de madrugada (entre 23h e 6h). Não sei ainda como vai ser...

Shabat Shalom.

Glossário
Chag é feriado

27.4.05

Amo muito tudo isso, também em Pessach
E quem disse que só porque é Pessach o McDonald's não pode funcionar? Pode sim, com o jeitinho típico daqui! A rede de fast food, em vez de fechar as portas como a maioria aqui em Israel fez, aproveitando o feriado para reformar, está oferecendo uma versão do McRoyal (e de outros sanduíches) sem pão. É a carne no prato, batata frita, salada e uma bebida.

Eu provei e aprovei. Só achei meio salgado - o preço. Mas a verdade é que comparado com o McRoyal usual (a versão chique e européia do Big Mac, crescido), não é tão caro. Para que se tenha uma idéia, um número um igualzinho ao do Brasil - Big Mac, batata e bebida - sai aqui por 8 dólares. Facada. Quanto sai o número um aí onde você mora?

Bom, pra quem não entendeu nada, uma explicação básica: nos dias entre o começo e o final de Pessach, chamados de Chol Hamoed, não se pode comer, basicamente, pão (e o que é levedado). Cada linha dentro do judaísmo tem suas regras específicas - e ontem descobri que cada ascendência diferente pode significar novas regras.

O que acaba acontecendo é que no período de Chol Hamoed os restaurantes que oferecem refeições servidas basicamente com pão (como redes de fast food e locais de falafel, shwarma etc) fecham as portas. Alguns oferecem as refeições em matzá, o "pão ázimo", a bolacha de Pessach. Mas é uma trabalheira comer um falafel esmagado entre duas matzot!

Glossário
Em breve.

24.4.05

Chag Sameach
Ou: do meu primeiro Pessach em Israel
Saiu um papo, dias antes do feriado, de que nos pagariam 40 shkalim pela hora (em vez de 19, como em dias normais) pelo trabalho nos dias de Pessach. Nos animamos, fazendo as contas: três dias de trabalho poderiam pagar o aluguel do mês.

A realidade acabou sendo bem outra: apenas 150% do normal, algo em torno de 28 shkalim. Nada mal, também, mas bem longe de completar um aluguel. Mesmo assim, topamos. E eis que no primeiro dia de trabalho, sexta-feira à noite, começamos a nos arrepender: o que, afinal, estávamos fazendo ali, tendo recebido tantos convites para passar a noite de Pessach com amigos, família etc?

Como trabalhadores organizados, resolvemos que no sábado, ontem, faríamos à nossa moda. Como era noite de seder, decidimos que usaríamos kipá. E assim fizemos. Achei exatamente quatro kipot (éramos quatro judeus!) e desfilamos com elas pela cozinha e pelo salão, sob olhares indignados dos colegas árabes.

Depois de servir a sobremesa, nós quatro (três brasileiros e um argentino) decidimos fazer o nosso seder de Pessach. Completo, diga-se de passagem! Comemos bem e de tudo, sem nem perguntar se poderíamos. Afinal, noite de seder é noite de seder: só uma vez por ano! Pena que não tínhamos câmera na hora - ia dar boas fotos!

Fato é que depois do seder nós voltamos ao trabalho. E ficamos lá até três da manhã, arrumando o salão para o dia seguinte. Voltamos à escravidão...!!! Por isso, está declarado: be shaná abaá be Yerushalaim, aval lo ba avodá! (ano que vem em Jerusalém, mas não trabalhando!)

Pessach Sameach!

Glossário
Chag Sameach significa "feriado feliz", "boa festa", algo assim!

Pessach, a Páscoa judaica, é o feriado da liberdade, que marca a saída dos judeus da escravidão no Egito. Para saber mais, entra aqui
Shekel (plural shkalim) é a moeda israelense. Na realidade, chama-se Novo Shekel Israelense, NIS na sigla em inglês, Shekel Chadash em hebraico. "Novo" porque foi adotado depois de uma reforma na economia israelense na década de oitenta. Reforma, aliás, que funcionou. O shekel vale um quarto de dólar, mais ou menos. Dezoito shkalim é o piso pago por hora em Israel. São mais ou menos quatro dólares e meio.
Seder significa "ordem". Ha Kol Beseder, como respondemos à pergunta "como você está", significa tudo bem, tudo em ordem. Mas seder, aqui, se refere à ordem da noite de Pessach, em que lemos a hagadá (lenda, literalmente) e relembramos a saída do povo judeu do Egito.
Kipá, hebraico para "solidéu" (alguém sabe o que é "solidéu"?) é o que os judeus (e o papa!) usam na cabeça.

19.4.05

De volta
Duas linhas só para avisar que estou de volta da Faixa de Gaza, onde passei o dia com outros correspondentes internacionais e muitas histórias. Conto mais quando tiver menos cansado. Ops, três linhas.

18.4.05

Enquanto isso, no MSN
(Ou: como ser mais esnobe do que um brasileiro esnobe)

Ele: Quinta feira é Tiradentes no Brasil, vocês têm algum dentista famoso a ponto de poder folgar? hehehehehehe

Eu: Ha! Nós temos DUAS SEMANAS de folga aqui, por causa de um sujeito que atravessou o oceano... Vocês têm isso por ai?!

Ele: É, mas nós temos uma semana de balada no começo do ano por motivo nenhum. Vocês tem isso aí?

Eu: A gente tem uma semana sem fazer nada e ainda podendo dormir em barracas no meio do ano!

Ele: Silêncio.

17.4.05

Sotaques...
Quando entrei na loja e ela estava no telefone, senti que algo naquele mivtá era comum. Não dei importância e continuei atrás do que eu estava procurando. Achei, negociei, pedi desconto, pedi um modelo diferente. Tudo em hebraico, claro. Quando ia pagar, reparei numa bandeira do Brasil colada no caixa! Ela é brasileira, carioca, de Niterói, 40 anos em Israel. Mesmo assim, ficou o sotaque (gulp!)

Papo vai, papo vem, ela e o marido, israelense, me disseram que com o meu hebraico, chaval al ha zman eu continuar estudando. Ri um riso convencido e no instante seguinte lembrei das conjugações verbais que não entram na minha cabeça, da falta de vocabulário etc etc etc. E disse a eles que me falta muito, ainda. Eu sei que falta...

E hoje foi dia de fazer as contas da casa com as shutafot, que já voltaram da Argentina. Terrível. Não as shutafot, mas as contas. Três idiotas tentando descobrir como calcular média ponderada. Precisei ligar pro disk-matemática e sanar a dúvida! Funcionou. Descobri que tenho que pagar, sozinho, mais da metade das contas. Normal!

Bom, amanhã é dia de ser garçom, a partir das oito da manhã, já que estou de férias do curso... E terça, dia de ir pra Faixa de Gaza, fazer umas entrevistas com os brasileiros que moram em Gush Katif, a região que vai ser desmantelada até julho. Aliás, ótimo artigo a respeito saiu hoje no Jerusalem Post.

Tenho muita coisa pra contar, dos dias que passaram. Volto em breve pra fazer isso. Mas, se "em breve" for depois da semana que vem, fica aqui o meu desejo de Pessach Kasher vSameach a todos. Vai ser meu primeiro Pessach em Israel. Trabalhando, porque dinheiro é bom e eu também gosto.

Glossário
Mivtá é acento. Acento não, "sotaque". Acento é "sotaque" em espanhol...!

Chaval al ha zman, literalmente, é "perda de tempo". E eles disseram isso. Mas também é uma expressão pra dizer que uma coisa é muito boa ou muito ruim. Coisa de israelense...!
Disk-matemática é o meu pai, que desde que eu era pequeno e já odiava números salvava minha vida quando eu estava afogado entre eles

10.4.05

No momento não posso atender...
Já volto... Sei que ando meio ausente, mas a vida aqui complicou. Coisa de mais pra horas de menos no dia. E dias de menos na semana (e olha que a semana aqui começa no domingo, pra valer). Aliás, hoje é domingo, devia estar na aula.

Fui.

Depois do sinal deixe seu nome,
número de telefone, horário da
chamada e eu entro em contato
quando puder, se puder, claro...

3.4.05

(Vai sem acentos, nao estou em casa)
Dialogos imediatos dentro de um onibus
(Ou: de como as pessoas em Israel podem se meter em uma conversa sem terem sido chamadas e voltar ao silencio em menos de dez minutos)
A cena: meu pai e eu no onibus, falando em portugues sobre a facilidade de entender um ou outro idioma. Citamos o italiano, o frances. No momento seguinte um individuo sentado logo atras dele chama a atencao e pergunta, em hebraico, se meu pai tinha visto um filme frances cujo titulo me foge agora. Nao nos lembravamos de haver assistido, mas ficamos curiosos pela curiosidade do sujeito.

Ele explica, respondendo a pergunta do meu pai, que como nos ouviu falando frances, pensou que talvez conhecessemos o tal filme. Comentei, entao, ainda em hebraico, que nao estavamos falando frances. Antes de ter tempo de explicar que era a lingua de Camoes, uma outra mulher, ate entao so de olho no dialogo, se intrometeu: "eles estavam falando espanhol!"

Nao, nao eh espanhol, explicamos, mas portugues. Somos do Brasil, olim chadashim, o filho ha nove e o pai ha quatro meses no pais. Que bom hebraico voces tem! Obrigado. Aprendemos aqui mesmo... Bla, bla, bla. A mulher do palpite errado comeca entao a falar sobre o espanhol com a mocinha que sentava ate entao muda ao seu lado. Atras delas, uma outra garota, com olhar timido, tenta disfarcar o sorriso pela situacao.

Eu tento, tambem, mas nao consigo. Dou risada e provoco a risada da garota, que evita me olhar para, acredito eu, nao cair na gargalhada. Meu pai se vira para mim, ainda ouvindo elogios sobre o nosso hebraico, e eu rindo. Explico a ele, agora em portugues, que de repente o onibus todo parecia estar prestando atencao no nosso papo! Caimos os dois na risada!

Chega o ponto dele, ele desce. Eu continuo alguns mais. E, de novo, silencio la dentro. Tudo como antes... Sigo nao conseguindo segurar a risada pelo que passou. Mas parece que as pessoas ja nao se importam com o tema. Passou. Chega o meu ponto. Desco.

30.3.05

Disengagement e futebol
(Ou: Porque um pouco de política não faz mal a ninguém)
A manchete do Jerusalem Post de hoje, que eu recebi pelo celular logo cedo (bendita tecnologia!), era Knesset OK's budget 58-36. Bom entendedor entendeu que caiu, com isso, a última ameaça política ao plano do Sharon. Explico: se o orçamento não passasse, o Parlamento poderia ser dissolvido e o atual governo, derrubado.

Anteontem outra barreira cedeu: o plebiscito cuja aplicação procuravam fazer aprovar para que o povo votasse a favor ou contra o plano - temia-se que a votação pública acabasse deslegitimizando a idéia, já que Israel é uma democracia... Liberdade de expressão e democracia nem sempre são bons negócios - como por exemplo quando permitem manifestações infelizes, estúpidas e preconceituosas num contexto de jogos de futebol.

Não foi só de um lado. Antes da partida de hoje entre França e Israel, que elevou a seleção asiática nas eliminatórias para a Copa, o goleiro francês soltou a pérola de que o time dele não deveria visitar Israel por conta da situação política. Preconceito. Ele não disse que tinha medo. Foi diferente. Do outro lado, no jogo anterior, contra a Irlanda, o autor do gol do empate, um árabe-israelense, teve que ouvir da própria torcida gritos de "morte aos árabes"...

Quem diria que eu falaria um dia sobre esporte aqui no blog...! Enfim, uma vez não mata...! Afinal, já dizia um chefe meu, "contextualize"! Lá vai: por questão de segurança, Israel disputa as eliminatórias com os times europeus, apesar de estar em outro continente. Curiosamente, nos jogos contra as duas seleções mais fortes do grupo (Irlanda e França), dois árabes fizeram os gols dos empates isralenses por 1 a 1.

Por causa dos dois resultados, a seleção de Israel ocupa a liderança do grupo, ao lado da França, e tem grandes chances de ir para a Copa do Mundo, o que só ocorreu uma vez na história, em 1970 - quando, brasileiros que somos, sabemos que quem levou a taça não foi Israel! E tem outra: as duas partidas foram as primeiras que Israel sediou desde o início da intifada, em 2000.
Chega de falar... Se quiser ler mais a respeito de toda essa história, espia os links: o Ha'aretz conta o episódio da coletiva em que jornalistas israelenses foram tirar satisfação do goleiro francês, aqui. O mesmo jornal conta do jogo de hoje, aqui. O Jerusalem Post, aqui. Também o Jpost faz uma análise do "herói" (árabe-)israelense na disputa contra a Irlanda, aqui. O IsraelInsider fala da invasão da torcida verde irlandesa para o primeiro jogo, aqui.

Glossário
Disengagement é o nome que se deu em inglês para o plano de retirada de assentamentos, colonos e tropas israelenses da Faixa de Gaza e de uns quantos lugares da Cisjordânia, que deve ser colocado em prática a partir de julho.

Knesset OK's budget 58-36, Parlamento aprova orçamento por 58 (votos) a 36.
Intifada, palavra árabe, quer dizer "levante". É esse negócio que destruiu o turismo israelense, prejudicou a economia daqui, matou um monte de gente dos dois lados e, no final das contas, não levou ninguém a lugar nenhum. Quem sabe o disengagement leve...

Já ia me esquecendo... O glossário, "um glossário", agora está compilado!

26.3.05

Dando uma de Indiana Jones
Adorei a Jordânia. Petra é maravilhosa, com tesouros arqueológicos a cada dez metros. O jordaniano é muito gentil, prestativo - pelo menos os que eu conheci (o motorista do taxi, o guia que nos levou por Petra, um ou outro vendedor de bugigangas, os condutores dos burros que nos carregaram para o alto de uma montanha...). Tem foto.

Mas na Jordânia, onde tudo é muito caro, homem não pode mascar chiclete! "É coisa de mulherzinha". Quem disse (ou deu a entender) foi o taxista que nos levou da fronteira com Eilat, no sul de Israel, até Petra. Lembrei de quando visitei, em Haifa, os jardins Ba'hai - lá também não se podia mascar chiclete... Coisas culturais.

O fim de semana, emendado porque Purim caiu no meio, teve também praia no Mar Vermelho de Eilat, diante das montanhas jordanianas. E calor, porque de vez em quando precisa derreter o gelo. E teve uma coisa daquelas que só acontecem para virar post depois: perdemos o ônibus na parada para o banheiro, no meio do nada. Stress e depois risadas. Sempre é assim!

Estou de volta à maldita rotina... Eu que sempre quis fugir dela!

Bye, então
O lado amargo das despedidas (e despedidas têm apenas esse lado) é perceber que com o tempo para o momento de dizer "tchau" chegando, as coisas que não se disse já não podem mais ser ditas. E fica aquele vazio, aquela vontade de dizer montes de coisas que não encontram tempo para se pronunciar. Depois, mais vazio, as fotos, o cheiro, as lembranças. E a vida tem que continuar. Vou ter que tirar o Tom da minha playlist.

23.3.05

Tip
A experiência de garçom ensina que gorjeta é como reconhecimento "pelo conjunto da obra": não é só por um sorriso na hora certa, pela bebida que veio rápida e bem preparada, por um pedido estranho atendido como o cliente queria - é por tudo isso, e mais um monte de fatores reunidos.

Ou não, como diria o "do contra"! Já tive mais de uma vez a prova disso: dia desses estava começando a atender uma mesa quando uma mulher enfiou cem shekels (uns 25 dólares!) no meu bolso. Nem tinha dito "boa noite"! Depois, na mesma mesa me deram ainda mais dinheiro. Preciso dizer que atendi os caras com um sorriso estampado na cara? Não, né?

A experiência de garçom ensina também que tip é algo importante! Não apenas para estampar sorriso na cara do garçom e fazê-lo trabalhar com prazer, mas para reconhecer um bom serviço. E isso me faz lembrar de uma vez, no Brasil, em que, muito mal atendido, resolvi não deixar os dez por cento. O garçom saiu atrás de mim, discutindo. Quase recorri ao gerente!

Aqui dez por cento são doze, em geral. As contas, que, sem o serviço já não são baratas, ficam doze por cento mais caras. Em Israel garçom é trabalho de estudante. Por aqui muitos lugares pagam fixos irrisórios (não é o caso do hotel onde trabalho, mas há desses...) Por isso, tips são importantíssimos! Mas, como em qualquer lugar, precisa ser merecido!

Tov... Amanhã parto de Jerusalém com destino ao Mar Morto, de lá para Eilat (extremo sul do país) e de lá, para a fronteira com a Jordânia, de onde viajo para Petra, a cidade do último Indiana Jones... Na volta, se a câmera não cair na privada, fotos!

Em tempo: chag Purim sameach!

Glossário
Tov é bom. Como em português, por aqui também se costuma dizer "bom" assim como eu disse aqui! Como um well no inglês...!
Chag Purim sameach significa "feliz feriado de
Purim", que começa hoje.

22.3.05

Coexistência é a palavra
Sempre que se discute conflitos, fala-se em tolerância. Já dizia um amigo meu que não se deve tratar de tolerar, já que isso pressupõe aceitar algo de que não se gosta, como se um fardo fosse. Coexistir, então, é a melhor palavra. E, depois de visitar o Museum on the Seam, incrustrado em terras árabe-palestinas de Jerusalém, entendi que em Israel se coexiste, sim. Falta coexistir em paz. Só.

O museu merece uma salva de palmas. Por cada um de seus detalhes merece aplausos de pé. Começa pela localização escolhida: uma casa que serviu de posto de fronteira entre o que era a Jordânia e Israel, antes de 1967. O local, perto do temido portão de Damasco da Cidade Velha de Jerusalém, é cercado por elementos que, também eles, coexistem. Árabes que não sabem hebraico, policiais de fronteira, crianças de kfia e de kipá...

Depois da localização, e só depois, a exposição. Impecável. Montagens com imagens e palavras que dizem tudo. Como, por exemplo, a que revela outros conflitos onde também a coexistência é necessária - Berlin, Belfast, Johanesburg, Sarajevo. Ou a que sugere que "black and white are not opposites". Ou muitas outras, que valem muito a visita.

No fim, aquela sensação de "o que eu posso fazer, então?" E um livro, State of Siege - Users Manual, que eu não resisti e comprei. Páginas de imagens de atentados, manifestações, que eu ousei folhear no ônibus na volta para casa, sentado ao lado de uma mulher que esticava o pescoço para entender do que se tratava. Coexistência, minha senhora...

Sou ainda desses idealistas, sim. Como Teddy Kollek, ex-prefeito de Jerusalém, quero também afirmar que I still believe that we'll succeed in building a city where different cultures will be able to coexist.

Um PS para o passaporte
Chegou hoje, na porta de casa, minha teudat ma'avar, pré-passaporte. O documento, azul como o futuro passaporte, me torna mais israelense. Sou todo orgulho!

Glossário
Seam, traduzido do hebraico tefer, significa costura. O museu, chamado Museum on the Seam, fica sobre a linha que foi divisória, limítrofe. Costura, por isso, duas culturas. Ajuda a coexistir...

Black and white are not opposites, preto e branco não são opostos. Esse, para mim, é o resumo da exposição no museu. Não só preto e branco não são opostos, porque existem tons de cinza e cores entre um e outro, mas também não são opostos judeus e árabes, ortodoxos e laicos, homens e mulheres, esquerdistas e direitistas, você e eu.
State of Siege - Users Manual, estado de sítio - manual do usuário.
I still believe that we'll succeed in building a city where different cultures will be able to coexist, eu ainda acredito que conseguiremos construir uma cidade na qual diferentes culturas poderão coexistir. Eu também acredito.
Teudat ma'avar é permissão de passagem, algo assim. É o documento que me permite sair do país antes de completar um ano como cidadão daqui. Saio do país na próxima quinta-feira, que é feriado em Israel. Vou para Petra, na Jordânia. Viu Indiana Jones? Então sabe de onde estou falando!

19.3.05

Evacuar Gaza
O mais legal de participar da hafganá que rolou no fim do Shabat em Tel Aviv não foi só o estar lá, mas o fato de que eu estava com pessoas de alguma forma engajadas em política israelense, como eu. Gente que não necessariamente concorda com o tema manifestado, mas que tem cabeça aberta o suficiente pra caminhar ao lado de pessoas com idéias diferentes dando o ponto de vista delas. A pedidos, não vou citar nomes!

A manifestação foi a favor da saída dos colonos da Faixa de Gaza. O plano de desconexão, tradução literal de hitnatcut, prevê o desmantelamento de todos os assentamentos judaicos da Faixa de Gaza - em um local lindo de nome Gush Katif (que eu pretendo visitar na semana que vem)- e de outros quatro na Cisjordânia. Boa parte da população concorda com a saída, porque pode trazer uma nova esperança de paz com os palestinos...

Uma coisa muito curiosa dos israelenses é o que eu chamo de "cultura dos adesivos". Tão curiosa e tão característica que virou música do Hadag Nachash, grupo famosinho por aqui. Desculpe a quem não entende hebraico, não achei a letra em inglês...! Em resumo, a música desfila uma porção de adesivos que decoram carros, casas e cadernos, e o refrão avisa: "quanta merda podemos engolir".

Um adesivo que deram na passeata hoje faz um jogo de palavras, em hebraico. Abaixo de um bonequinho agachado como quem está, digamos assim, defecando, os dizeres: "se a situação está uma merda, é necessário lehitpanot". Ou seja, evacuar. O sentido político é evacuar (sair) de Gaza... O outro dispensa explicações!

A hafganá foi o fechamento do fim de semana que passamos, namorada e eu, em Tel Aviv, com direito a praia, sol, calor, almoço no Yotvata, caminhada pela Cidade Branca, passeio em Yafo, comida típica... Tenho que confessar que adoro praia, sim! Mas não para morar! Ainda prefiro viver entre as pedras de Jerusalém!

Shavua tov. Amanhã começa mais uma semana...!

Glossário
Hafganá é manifestação.
Hitnatcut é desconexão, desengajamento, saída. No Brasil, se eu não me engano, o termo usado é desocupação. Não gosto de me referir ao tema como "ocupação"...

Hadag Nachash é o nome do grupo que canta Shirat Sticker, que significa "música dos adesivos". O nome do grupo não tem qualquer sentido: "o peixe cobra".
Lehitpanot, verbo passivo, significa evacuar. Tem duplo sentido também em português!
Shavua tov significa boa semana.

18.3.05

Mais do mesmo?
Com o tempo as coisas que achamos surpreendentes, novas, as coisas que nos são inéditas vão se tornando comuns, diárias, rotineiras. Mesmo assim, diante de algumas delas, ainda nos surpreendemos. Assim é com os casamentos no hotel do kibutz onde trabalho como garçom, de vez em quando como segurança.

Todo dia, a mesma coisa: os convidados entram para a kabalat panim, conversam sobre temas amenos, beliscam comidinhas que trazemos e levamos. Depois, passam ao ulam, sentam-se às mesas e esperam os noivos, que a essa altura estão tradicionalmente no primeiro momento sozinhos.

A banda toca músicas leves, ninguém dança. De repente, tudo muda: os noivos aparecem, cercados de gente. Os convidados se levantam. Mulheres vão para um lado, homens para outro. E dançam, as mesmas danças de todos os dias. Mesmo a repetição emociona quem a vê todo dia.

Depois de dançar muito, em rodas noivo-centristas, o marido "busca" a esposa e a leva para a roda masculina. Sentam em cadeiras e são levantados pelos convidados. Muita animação. Sorrisos dos recém-casados e dos amigos e familiares.

E vem a primeira refeição, a outra, outra mais, bebidas, sorrisos dos garçons querendo tip, a sobremesa anunciada com luzes parecida às de fogos de artifício. Mais dança, mais conversas sobre amenidades, mais sorrisos de garçons.

A repetição infinita do mesmo.

Glossário
Kabalat panim é "recepção", onde a festa começa. Panim, a propósito, é a palavra para "cara", "rosto". Ulam é "salão" - não confundir com olam, que é "mundo". Tip, como no inglês, é "gorjeta".

14.3.05

De volta ao kibutz
O programa do fim de semana foi uma volta ao passado, em alguma medida: visitar o kibutz En Dor, onde morei em 2002 durante os seis meses mais decisivos da minha vida. E, lá, rever as pessoas que conviveram comigo. Muitas na mesma, paradas no tempo. Outras totalmente diferentes. O tempo passou...

A verdade é que a visita, dessa vez com a namorada, foi diferente da que fiz ano passado, sozinho. Não só pela namorada, mas porque dessa vez não fiquei com aquela impressão azeda de que a música tem razão ao dizer que nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia. Não será, isso é certo. Mas diferente pode ser melhor, nem sempre pior. Vi quem importa e quem se importa. E bastou.

Fim do shabat, hora de voltar pra capital, pra vida real. E de deixar pra trás, sabe-se lá por quanto tempo, de novo, aquele pedacinho de Israel que foi onde o amor por esse país começou a surgir, em meio ao cheiro de merda de vaca ao amanhecer e trabalhando no jardim alheio.

Demorou, mas me dei conta de que saudade não precisa ser só de pessoas ou de locais, mas também de um tempo que representou muito na vida da gente. Guardo En Dor no coração porque aqueles seis meses foram muito importantes pra mim. Decisivos, como eu disse. Talvez eu nunca estaria aqui hoje se não tivesse estado lá em 2002...

Glossário
Kibutz é uma comunidade basicamente agrícola em que vivem pessoas dentro de um sistema socialista. Essa definição não mais se aplica aos kibutzim atuais. Dos 270 existente em Israel com esse nome, os que realmente sobreviveram são sustentados pelo capitalismo! Os outros viraram grandes "bairros", apenas. E privatizaram tudo. En Dor é um exemplo da segunda categoria.