6.1.03

Umas palavras sobre mídia
O atentado já foi e, infelizmente, virou notícia velha. É como jornal, que no dia seguinte só serve para cachorro fazer cocô em cima... Mas eu tenho acompanhado, ainda que sem entender o hebraico 100%, a cobertura da mídia israelense e da internacional sobre o conflito. Enquanto os canais de TV de Israel mostravam, ontem, as cenas do atentado em Tel Aviv, a BBC, de Londres, dava espaço para um editor árabe falar durante cinco minutos justificando os ataques...

Um site faz um trabalho muito interessante nesse sentido, e eu conheci ontem a pessoa que está por trás dele. É o Prensa Veraz, espanhol para "imprensa honesta", que faz uma leitura crítica da maioria dos grandes veículos de fala hispânica, questionando cada desinformação publicada. É um dos filhos do Honest Reporting, mesma coisa em inglês. Isso se chama hasbará, hebraico para 'esclarecimento'.

O trabalho de hasbará não é fácil. Estou de volta ao Oriente Médio por isso: vou participar de um congresso sobre o assunto, promovido pelo Ministério de Relações Exteriores daqui. Mas Israel às vezes se esquece de fazer sua parte... Hoje estive em uma coletiva com o ministro de Relações Exteriores, Bibi Netanyahu... E ele nem teve o cuidado de, entre jornalistas de todo o mundo, responder em inglês para os israelenses. Essa e outras cagadas, que o Nahum, com o jeitão dele, não deixou barato! É uma escola esse gaúcho!

Enfim, hoje não fiz muito mais que isso. Saí de casa para a coletiva a voltei. Aqui, escrevi para a Morashá e para a Aleinu, só...

Em tempo: essa foto aí no alto conta bem a história da manipulação das notícias pela mídia... Foi publicada pelo The New York Times com a legenda "Um policial israelense e um palestino no Monte do Templo". Pode até ser, né? Mas não é! O policial sim é israelense. O garoto, ferido, é um judeu norte-americano que foi espancado por palestinos... Mas isso também já é notícia velha... Aconteceu no comecinho da Intifada, lá pelos idos de 2000. Pena que nada mudou de lá pra cá...
Vídeo
Clique aqui. Porque uma imagem vale mais que mil palavras... E os mortos já são vinte e quatro. Identificaram quinze deles, a maioria (11) israelenses. Os esforços continuam. E o filho da puta (não tem como não dizer) do Arafat deu essa entrevista à Folha... Ele diz que a Intifada vai continuar...

5.1.03

E já são VINTE E TRÊS
E a notícia, confirmada: a maioria das vítimas era israelense.
Estou atualizando a matéria pra Aleinu.
Mensagem
Do premiê de Israel, hoje:
"Nós precisamos de vocês aqui em Israel agora mais que nunca"
Ariel Sharon, ao grupo do Birthright que ele recebeu em Jerusalém,
antes da reunião do Gabinete de Segurança para tratar da resposta
ao atentado em Tel Aviv.
VINTE E DOIS
E 100 "semi-mortos" (feridos)...
Mais telefones importantes.
VINTE E UM
Sem mais comentários...
VINTE MORTOS
Não podia dar outro título a este post, depois da morte de vinte pessoas inocentes, a maioria delas, ironicamente, nem israelenses. Dois homens-bomba se explodiram na tachaná mercazit (estação central) antiga, onde uma amiga minha, recém-entrada na Tzavá (Forças de Defesa de Israel), estava trabalhando... Ela está bem, graças a D-s. Mas, muita gente não. E não são só os vinte mortos e todos os parentes deles, mas pelo menos noventa semi-mortos, sete deles em condições graves, que provavelmente aumentarão as estatísticas de fatalities... E ainda essa: como são ilegais, muitos estão se escondendo com medo de serem deportados. Mas o governo já garantiu imunidade a eles.

Enfim, essa história toda começou quando eu estava no Opera Towers, um prédio que faz parte do cartão postal de Tel Aviv. Estava esperando uma ligação de uma pessoa que encontraria para uma reunião quando ouvi na mesa ao lado as palavras "pigua" (atentado) e "tachaná mercazit". E aí, comecei a ritual de todo israelense depois de um atentado: primeiro ligar para confirmar, em português, a notícia. Depois, telefonar para 1) todos os meus conhecidos que moram aqui para saber se eles estavam bem e 2) os meus parentes que estão no Brasil preocupados comigo.

Chegou a pessoa da minha reunião e o ritual continuou. Israelense (ela fez aliah da Argentina há um ano e meio), dona de um telefone celular que tocava a cada cinco minutos em busca de uma notícia positiva: "At besseder?" ("você está bem?"), "Eifo at?" ("onde você está?")... E a vida continua... Sentamos em um café, ao lado da janela. Estávamos relativamente perto de onde ocorreu o ataque. E víamos ambulâncias passando, ouvíamos sirenes... As rádios começaram a tocar temas leves... Os celulares também não pararam.

Enfim, começou a semana em Israel... E estamos de volta à rotina de atentados. Que seja um caso isolado e que as previsões e "informações privilegiadas" de alguns especialistas não se confirmem. Eu estou protegido. Mas há gente, como os pobres imigrantes que morreram hoje, que não estão... Fico por aqui, triste, "pra baixo", e tentado reunir algum otimismo. The show must go on, já dizia um aí... E a vida, idem.

Números de emergência:
(para chamar a partir de Israel)
Hospital Ichilov, Tel Aviv: 12 55 133
Ministério de Absorção de Imigrantes: 03-97 33 333
Hotline para quem não fala hebraico: 12 555 081010
Hotline para trabalhadores estrangeiros: 03-687 9727
Hotline da prefeitura de Tel Aviv: 12 55 036 666

4.1.03

Se...
Quatro e pouco da manhã do sábado. Deve ter virado meia-noite no Brasil. E eu estou acordado. Ouvia as histórias do Nahum, histórias de outro tempo. Histórias, que, eu insisto, ele devia escrever, contar, registrar. Mas não quer. Histórias que ele até publicaria, outras que não, nem morto! Algumas que conta com nostalgia; outras, dando e provocando risada... Ah, se o jornalismo de hoje fosse pelo menos metade do que era. Se existisse idealismo, corrida pelo furo, dificuldade de transmitir uma notícia... Ah, se houvesse jornalistas como ele... Hoje, me resta sonhar com uma época que não vivi. Uma época que, nos relatos do Nahum, vivo como se não fossem histórias, mas memórias.

3.1.03

Mudança de planos
Um baita resfriado e a dificuldade de achar condução no Shabat me fizeram mudar de planos. Fiquei em Tel Aviv, onde estou me dedicando a fazer coisas que no Brasil só fico adiando: ler alguns livros (como os dois Milan Kundera que viajaram comigo), escrever alguns textos, pensar... O Kotel fica para a semana que vem. Amanhã, se o tempo e meu estado de saúde colaborarem, vou dar uma volta por "Telavive", fazer umas fotos... Comentei com o Gus, dia desses: meu sonho é poder passar um mês em Israel com nada pra fazer e uma câmera na mão. Idéia não falta! Bom shabes.
O Kotel, enfim
Depois de pouco mais de uma semana em Israel devo passar o Shabat, finalmente, no Kotel ('muro ocidental', ou Muro das Lamentações), em Jerusalém. Provavelmente ficarei sem Internet por lá, até voltar, no domingo. Então não devo atualizar o blog. Mas meu celular vai continuar ligado e recebendo e-mails e mensagens de SMS! Bom fim-de-semana e Shabat Shalom para todos.

2.1.03

Chove sem parar...
Uma hora e muito em Israel e chove torrencialmente em Tel Aviv... Neve, que é bom, até agora só no Hermon... E eu ainda não vi!
Um passeio pelo país
Mochila nas costas, câmera preparada, algum dinheiro no bolso, disposição de sobra. Essa é parte da fórmula para uma viagem de um dia para o norte de Israel. O que fica faltando, pra ser perfeito, é um sistema ferroviário de qualidade, com pontualidade e segurança. Se é de Israel que falamos, a fórmula está perfeita. E deu certo: fui com o Gus para Haifa, a partir da estação Universita, uma das três de Tel Aviv, e, depois de passear pela terceira maior cidade do país, fomos para o quase-Líbano, Naharia. Tudo de trem. Tudo muito rápido, eficiente, organizado.

De como um segurança pode ser mais que um segurança...
Se teve alguma coisa chata -e teve-, foi a forma como me pararam na entrada da primeira estação de embarque, em Tel Aviv. Como sempre, desconfiaram da minha cara de árabe. A barba de hamasnik não ajuda: é batata! Eu chego, me param. Algumas vezes de forma educada. Outras, não. Hoje me barraram na entrada da estação e fizeram um interrogatório. De onde venho, para onde vou, de onde sou, o que faço em Israel, por que sei hebraico, blá, blá, blá...

Eu ando sem o passaporte, por instrução da Lishcat Ha Itonut Ha Memshalatit ('escritório de imprensa do governo'), que emitiu minha credencial, meu único documento em Israel. Não bastou para o cara... E aí começou uma discussão em hebraico... Fiquei puto, mas gostei a beça de praticar e brigar em ivrit! Tô podendo!!! Agora o Nahum, que além de jornalista e hospedeiro é também professor, me disse que vale a pena nessas horas falar em inglês. Lição anotada...

De volta aos trilhos
Passou que, então, tudo correu bem. O cara se convenceu que de árabe eu só tenho a cara e a barba e me deixou embarcar. E daí, fomos a Haifa, com o trem bom do qual já falei. Lá, andamos de Carmelit, uma espécie de "metrô-teleférico" que sobe o monte Carmel (olha aqui eu na porta!). Vimos de cima os jardins BaHai e caminhamos até encontrar o teleférico que desce até o YotVatá, onde almoçamos.

Voltamos para o trem, embarcamos para Naharia. Chegamos de noite, mas deu pra ver as luzes do Líbano, que fica dali doze quilômetros. E visitamos amigos que conhecemos da Internet, como a Gladis, religiosa de mente aberta com quem falamos de drusos, de árabes, de viver tão perto do Líbano e de ser "cada um na sua" em relação à religião. Na foto, comigo, ela, o irmão André, também religioso, e o marido Chagai.

Nove e pouco da noite sai o último trem de Naharia para Tel Aviv. E nove e pouco significa nove e pouco, nem um minuto a mais, nem um a menos. A chegada também tem horário previsto e cumprido. E assim foi. O que eu gosto de Israel, entre muitas outras coisas, é essa facilidade que se tem de viajar por boa parte do país em uma one-day-trip. Claro que o tamanho ajuda...

1.1.03

Passeio de longe
Eu me lembrei desse site super legal para quem está longe mas quer conhecer, assim mesmo, um pouquinho de Israel! Clica aqui e passeia. Tem dicas, informações sobre o país, roteiros de viagens, eventos e calendário, tour virtual, etcétera, etcétera, etcétera... Estou agora passeando pela galeria de fotos, e vendo lindas imagens de Jerusalém, da gente daqui, de paisagens, aventura, arqueologia...
De como os argentinos não sabem fazer festas
Quando o Gus e eu fomos ontem para a Focus, para a festa de Reveillon (a data que lembra o papa anti-semita!), já não esperávamos muita coisa. Mas, pelo menos, pensávamos que, organizada por argentinos, a balada ia incluir, além de rumba, salsa e cerveja portenha, pelo menos uma contagem regressiva. Nem isso. De repente, assim, puf!, era dois mil e três. A festa foi tão... tão... tão nem-sei-o-quê que até esqueci de contar!!! Enfim, bom ano!
Direto da Cisjordânia
Hoje foi dia de, digamos assim, passear pela Cisjordânia, um dos territórios controlados pela Autoridade Palestina e onde, teoricamente, se os árabes forem espertos o suficiente e deixarem de perder boas oportunidades, um dia será o Estado Palestino. Lá no meio tem um monte de assentamentos judaicos, assim como no meio de Israel tem um monte de árabes vivendo. O assunto é delicado e polêmico e o que eu quero fazer aqui não é política ou criar discussão, mas contar do meu dia.

Ortodoxo, o filho do Nahum vive em um desses assentamentos, de nome Beitar Illit. Moram Iossi (o filho), sua esposa e cinco pimpolhos, o que é uma família pequena para a média da cidade e entre os haredim (religiosos), de pelo menos uma dezena de rebentos. Aliás, vale dizer, judeu ortodoxo e árabe tem dessa: fazer filho como alternativa para a falta da televisão, proibida nos lares conservadores. E disso vem uma das expressões do Nahum que mais ficam: "os árabes vão ganhar a guerra pela barriga".

Beitar Illit é uma cidade nova, de cerca de quinze anos. Nova, mas novo também é o país, de 54 invernos. Tem 20 mil moradores, todos religiosos, todos com muitos filhos, todos sem tevê e todos muito bem, obrigado. Sempre que vou lá (foi minha quinta visita desde que conheci o Nahum, em abril), aprendo muito. De religião, de política e do que ventila os neurônios da ortodoxia. E recarrego minhas energias espirituais, com lições de vida.

O dia terminou com a volta de Beitar Illit em um carro que, achamos, era blindado, compras e uma pizza no centro comercial de Ramat Aviv, e histórias fantásticas do Nahum, que viveu a época áurea do jornalismo, da televisão, das vedetes e das aventuras em busca de um furo. Não temos mais disso, é pena. Nem de Nahums, nem do jornalismo que o jornalismo já foi.

Citação
Do Veríssimo, de quem estou lendo Sexo na cabeça: "o sono é um acidente ao qual a gente sobrevive, mas leva meio dia para se recuperar!". E amanhã eu tenho que acordar cedo para tomar café e me mandar para o norte, visitar meus parentes em Haifa e chegar a Naharia, bem pertinho da fronteira com o Líbano, país com o qual Israel ainda não tem acordo de paz... A propósito, só temos acordo com dois dos nossos cinco vizinhos: Egito e Jordânia.