28.8.05

De novo do jeito que já foi um dia
Life is not measured by the number of breaths we take,
But by the moments that take our breath away

Já teve a sensação de que não aproveitou o máximo que um determinado momento poderia render? Como, quando adolescentes, a gente deixa de convidar a garota para dançar por timidez e depois se arrepende. Costumo arrancar de cada instante tudo que posso. Olhar no rosto das pessoas que estão comigo - amigos e mulheres, não importa. Ouvir a voz com olhos fechados como para registrá-la sem ruídos e interferências. Sentir o toque em um abraço, em um beijo, em um carinho.

Ouvir as palavras e guardá-las como se em um disco rígido que falha, falha muito - a nossa memória. E lembrar, depois, de cada palavra, do riso que ela provocou, do olhar maroto que ela trouxe...

E mesmo assim, depois de tudo isso, fica a sensação de que não aproveitei o máximo de um determinado momento. Estranho.
Bomba, outra
Outra explosão, hoje de manhã, atingiu Be'er Sheva, no sul do país. Não houve mortos mas pelo menos 48 pessoas ficaram feridas, duas gravemente. Reports no Jerusalem Post e no Haaretz. É o primeiro atentado terrorista desde o fim da operação de retirada dos colonos judeus de assentamentos na Faixa de Gaza e na Cisjordânia.

Esperamos as reações, dos dois lados. Não os bla-bla-blás, mas as reações efetivas.

Para quem está em Israel e preocupado:
EMERGENCY HOTLINE, SOROKA HOSPITAL 12-55-177
BE'ER SHEVA MUNICIPALITY HOTLINE 08-646-3737

24.8.05

Meu primeiro ao vivo
Acabei de transmitir para a Radio Franca Internacional, ao vivo, boletim sobre um ataque que ocorreu no incio da noite de hoje na Cidade Velha de Jerusalem - um ortodoxo morreu e outro ficou ferido depois de serem esfaqueados por um arabe. Quem quiser ouvir minha voz tremula e nervosa dando a noticia, clica aqui.

23.8.05

Planeta Blog chamando
Tinha que voltar, tomar vergonha na cara. Quase deixei o blog morrer, nem eu mesmo entrei para ver os comentários, sequer. Mas estou de volta, cheio de histórias. Histórias, algumas delas, que vão para um livro que eu comecei a escrever hoje. Como os últimos três, não vai ser publicado. Mas saibam que estou escrevendo um livro! Como já plantei árvores, fica faltando apenas o filho. Deixemos isso para outra ocasião, tá...?

História que tenho que contar é a da visita da Karina. A Karina, para quem não sabe, conheci há mais de quinze anos. E, por essas coisas do Orkut, nos reencontramos. Estudamos juntos no Miguel de Cervantes, onde aprendi um espanhol que já não tenho. Os caminhos se descruzaram, ela foi para a Espanha e eu vim parar em Israel. Coisas do destino... Pelo menos Madrid e Jerusalém ficam mais próximas do que de São Paulo.

Ela veio, passou uma semana. E nessa semana passeamos de carro (o turismo é outro quando você tem quatro rodas) por quase todo o país, ou por muita coisa que fica ao norte do Mar Morto e ao sul de Rosh Hanikra. Aproveitamos, né? Foi uma semana bem intensa.

E foi semana de desconexão. Fiquei devendo explicações sobre o último post (que foi só um teste mas acabou virando post no Blog dos Blogs!). Já explico o confronto das cores e as emoções das coisas que vi (e das que não vi, porque não pude ir a Gaza ver de perto) na semana que acabou.

Mas antes de semana da Karina e da semana da desconexão teve o mês da Sofia. A Sofia, que conheci entre uma palestra e outra tequila na Guatemala, veio do México parar em Israel. Já está de volta em Huixquilucan e vem para Jerusalém em um mês. A Sofia trouxe os temperos e os sabores do México e deu uma graça especial nos dias que passou aqui - mas não só pela comida (ela me mata!).

Desconectamos, enfim
Em poucas palavras, o primeiro-ministro Ariel Sharon resolveu que algo precisava ser feito porque Israel não tem um parceiro confiável para negociar a paz. Algo unilateral. Desconectar, pois. E assim foi feito, na semana passada. Israel desocupou todas as 21 colônias da Faixa de Gaza, que agora não tem mais judeus morando, e quatro da Cisjordânia, de onde estão saindo hoje.

O negócio das cores é assim. Laranja é a cor oficial de Gush Katif. Mistura o amarelo da areia com o vermelho do sol, uma parada assim. Gush Katif, o nome do bloco de colônias da Faixa de Gaza, fica diante da praia. Ficava. Então os opositores do plano do Sharon adotaram o laranja para protestar. E fizeram pulseiras, faixas, adesivos, fitas, manifestações - tudo laranja.

Em Israel, país do cachol ve lavan, do azul e branco, a oposição da oposição demorou mas não falhou. Veio bem depois da onda laranja uma distribuição de (de novo) pulseiras, faixas, adesivos e fitas - tudo azul como Adão e Eva no paraíso. E ficou assim: quem se opõe (se opunha) à saída dos assentamentos vestia laranja. Quem vai (ia) a favor, azul.

E aí, claro, surgiram as entidades que querem que todos esqueçam essa bobagem de cores e sejam todos irmãos. Então criaram o slogan "Precisamos manter a relação" com duas fitas (uma de cada cor) amarradas. Ou o slogan "O importante é não nos desconectar um do outro", com dois triângulos (como os que formam a Estrela de David na bandeira israelense) separados.

As emoções pela TV
Não fui a Gaza. Fui em abril, quando tudo estava mais calmo e a minha carteira de jornalista ainda não tinha vencido. Venceu e não renovaram, não pude ir. Mas acompanhei pela TV e me emocionei, sim, com as coisas que vi - como os soldados abraçados com os colonos que eles deviam retirar de Gaza, todos chorando. Imagem que fica para a memória do acontecimento.

Embora não tenha estado lá, cobri o que rolou na semana passada - e continuo fazendo isso, diariamente - para a Rádio França Internacional, que transmite quatro programas diários para 50 rádios do Brasil em português. Minha última colaboração foi ao ar na manhã de hoje em Paris. Está no ar.

4.8.05

E o 15 de agosto está chegando

E o 15 de agosto está chegando
DSCF1032Faltam apenas duas semanas para a desconexão, para que Israel saia completamente da Faixa de Gaza. O clima é tenso. Grupos extremistas israelenses tentam invadir o local, selado há algumas semanas, para frustrar o plano de saída. Em vão. Muitos já saíram, algumas famílias já receberam as chaves das casas novas em locais como Nitzanim e a essa altura já devem estar decorando suas novas moradias.

E continua a disputa entre laranjas e azuis, por todo lado. Jerusalém está toda pintada, nas duas cores. Carros, mochilas, pulsos e tudo onde se pode amarrar uma fita leva uma das cores. No ônibus que eu fotografei semana passada o cartaz diz: "Devemos manter o relacionamento".

O que será não se sabe...

1.8.05

Acabou o Taka
E, no tekes de fim (israelense é chegado em uma cerimônia!), marcou a atitude da francesa religiosa de 19 anos que, durante os cinco meses de curso, me detonou por eu ser azul e "querer entregar Gaza para os terroristas". Ela tirou do pulso uma pulseira de pedrinhas e me deu, dizendo: "para você me devolver na próxima vez em que nos encontrarmos, para que tenha uma próxima vez".

É dessas pequenas coisas que o bonito da vida é feito. Fiquei emocionado, sem exagero. E, como um bobo de 26 anos, procurei alguma coisa para dar a ela, em troca. Não achei, mas dei a promessa de que sim haverá próxima vez e de que na próxima, levo alguma coisa minha para que tenha mais uma! E nos despedimos, entre sorrisos tímidos e o constragimento de não poder matar a timidez com um abraço, porque ela é religiosa.

E acabou o Taka, cinco meses depois. Fotos, sorrisos, declarações de agradecimento aos professores e à equipe que, nem tinha noção, é bem maior do que imaginava. Acabou a segunda fase da aliá - e com ela, a sensação de tristeza por estar deixando mais uma etapa. E a esperança de que as pessoas - como a francesa, os russos, os latinos e todos que passaram como eu por essa atribulada fase - fiquem em contato. Com ou sem pulseira, porque tem uma coisa bem mais significativa entre nós...

24.7.05

Sou uma puta
Andei buscando uma boa definição para o meu trabalho. Encontrei: sou uma puta. Explico...

Saio todas as noites de casa para trabalhar, durante a madrugada, em uma coisa que as pessoas odeiam - mas sem a qual o cliente não pode viver. Ganho bem, como as putas. Saio detonado do trabalho, de manhã, jurando para mim mesmo que vou parar. Só que na noite do mesmo dia já estou na lida de novo. Muitas das pessoas com quem eu lido durante o trabalho me maltratam, gritam comigo, dizem palavrões e me fazem ameaças. Mesmo assim eu falo com eles no melhor tom possível, mantendo a calma...

De vez em quando vou trabalhar de táxi (por estar atrasado e o táxi levar apenas cinco minutos em vez dos 40 do ônibus) - como as putas de luxo. Não trabalho na minha profissao mas continuo estudando (com a ajuda da grana que ganho) para poder sair dessa vida. E nunca saio. Outras pessoas usam o meu local de trabalho nos horários em que eu não estou trabalhando e eu não tenho a menor idéia de quem são essas pessoas.

Sou ou não uma puta?

13.7.05

Boom
Estava silencioso demais, como me disse o sujeito no carro ao lado. De repente, uma explosao, tres mortos, pelo menos 90 feridos. Em Netania, a cidade para a qual meu pai vai mudar em duas semanas. Depois conto a historia com mais detalhes - e conto como eu estava perto...

Lamentavel, o terrorismo esta' de volta.

5.7.05

Balanço: 1 ano
Meus bons amigos
Onde estão?
Notícias de todos
Quero saber...
Cada um
Fez sua vida
De forma diferente...


Tá. Um ano passou. Um ano desde que eu deixei o Brasil, mas eu não deixei o Brasil para sempre. E acordei hoje-ontem, com o celular trazendo para perto minha irmã, que ficou longe. Chorando feito bobo li e reli ela dizendo que me ama e que sente saudade de mim. Um ano passou.

Resolvi fazer o que gosto no 4 de julho do um ano. Quatro de julho de feriado nos EUA e de feriado para mim aqui. Ficar com amigos! E fiz isso a tarde toda, com os amigos novos, de um ano. Vimos SBT pela net, falamos português, comemos pizza com ketchup, rimos das piadas nossas. Relembramos o primeiro ano.

Resolvi ler alguma coisa. E li no Orkut os recados deixados por todas aquelas pessoas especiais dos últimos 26 anos. Gente que faz uma falta enorme, mas falta menor do que vai fazer em um ano. Deu saudade, chorei de novo, relembrei mais um pouco. Deu muita saudade.

Resolvi fazer um balanço. Nesse ano amei. Amei muito. Amei à distância e perto. Odiei, também. Menos. Menos do que amei e menos do que já odiei. Nesse ano aprendi. Aprendi sobre os outros, sobre outros idiomas, sobre outros países, sobre outras pessoas, sobre alegrias e sofrimentos que eu não conhecia.

Nesse ano cresci muito, embora tenha emagrecido um pouco! Ainda não aprendi a cozinhar, acho que a limpar a casa tampouco. Mas vou tentando... Assumi uma rotina e compromissos - o de aprender o hebraico, o de assinar um contrato, o de aparecer todas as madrugadas no trabalho. O de estar para os amigos que estão para mim.

Nesse ano li menos. Li menos porque não li em português. Senti falta do português e de poder me expressar como em português. Também me expressei menos. Também me entenderam menos. Também precisei manobrar outros idiomas - os que eu sabia e os que eu aprendo na marra - para dizer o que ia pela minha cabeça.

Nesse ano realizei um sonho. Troquei a ideologia por realização. Botei os pés e finquei a minha bandeira. Continuei me emocionando ao ouvir as músicas e as coisas que fortaleceram a ideologia. Mas me senti mais forte e até corajoso por estar realizando o que sonhei.

Nesse ano recebi elogios, patadas, cantadas, abraços, beijos. Descobri amigos que já não quero deixar, também. Recebi amigos que ficaram no Brasil e vieram visitar. Senti saudade dos que não vieram. Tentei convencer os que ficaram para que viessem. Descobri paixões que nem suspeitava entre quem ficou.

Nesse ano me embebedei, fiz merda, matei aula, matei trabalho, sumi de um trabalho, briguei por motivos idiotas, discuti política, gastei mais do que devia e fiquei no negativo no banco. Nesse ano chorei. Não sei se chorei mais. Mas chorei muito. Vai passar...

Nesse ano dancei forró que não era ao vivo, tomei Guaraná que não tinha comprado, caipirinha que não tinha cachaça, comi açaí sem gosto, feijão sem panela de pressão, pão de queijo de saco, pé-de-moleque de presente, farinha láctea importada, ouvi vozes em português pelo Skype.

Nesse ano conheci muita gente. Muita gente. Gente da França e da Argentina, dos EUA e da Rússia, da Etiópia e do Brasil, de Cuba e do Irã. Estive na Jordânia e no Egito...

Um ano passou.

3.7.05

Volta ao mundo
Já dizia Amyr Klink que "um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver".

Com esse espírito, minha amiga Lud vai embarcar ainda hoje com o Allan Vasconcellos para uma aventura maravilhosa - uma volta ao mundo! Como eu disse pra ela num email que acabei de mandar, eles estão realizando o sonho de muita gente (o meu entre elas!). Vão passar por quatro continentes. Do caralho! Lá no site eles vão contar cada pedaço da aventura! Sensacional. Fico aqui no meu mundinho acompanhando de longe! Lud, boas viagens!!

30.6.05

Gay parade, violencia e 45 dias faltando
In light of the violence we have
seen here today, it goes to show how
much farther we have to go to turn
Israel into a liberal and tolerant state.

Hoje foi dia da primeira parada gay aqui em Jerusalem, cuja realizacao acabou aprovada apesar das manifestacoes dos ortodoxos. Deu merda, claro. Um tipo de preto esfaqueou gente no meio da passeata colorida. Uns foram presos, outros foram internados. A frase acima, do deputado Roman Bronfman, resume o espirito dos dias de hoje em Israel. Existe uma tensao muito, muito forte no ar.

A caminho do trabalho, onde estou agora, o onibus precisou desviar do roteiro. Ficamos, la dentro, entre reclamacoes de uns e de outros, sem saber a razao. Podia ser chefetz chashud, objeto suspeito que atrai a atencao da policia, coloca robos e sistemas avancados de detonacao controlada em acao. Podia ser um agente laranja ou um monte deles fazendo uma manifestacao contra a saida da Faixa de Gaza. Podia ser um acidente, ate...

A coisa esta' feia, mesmo. A violencia entre judeus estampada na capa de jornais, circulando na internet. Frases de efeito, slogans dos dois lados (hoje eu ouvi a versao de resposta ao "judeu nao expulsa judeu": "judeu nao expulsa judeu, apenas o move um pouquinho"), faixas cor-de-laranja e azuis (consegui a minha hoje, afinal) penduradas pela cidade, nos carros, nas mochilas, nos pulsos e nos postes...

E o medo do que vai acontecer em 45 dias, que e' so o que falta para a desconexao. Tao pouco tempo faltando, hoje o Exercito decidiu declarar Gaza territorio fechado - ninguem entra, quem quiser sair faz um favor. A duvida e' o que mais assusta. Os confrontos estao por toda parte, nao apenas la em Gaza. No mesmo onibus, hoje, um tipo gritava e brigava com um outro, como se fosse coisa pessoal: cada um tinha no pulso uma cor diferente...

29.6.05

Coisas de idioma
Já deu um fora enorme com idioma? Eu já dei um monte deles. Se fosse tentar lembrar, certamente deixaria diversos foras de fora. Eis que hoje quis comprar uma fita azul (como a cor-de-laranja que está na moda aqui) para fazer oposição aos que fazem oposição ao plano de saída de Faixa de Gaza, chegando.

"Fita" em hebraico é seret, a mesma palavra para "filme". E seret cachol, eu não sabia, é uma forma de se referir a filme pornô... Pois eu entrei em uma loja, de brasileiros pra deixar o fora ainda mais... fora, e pedi, pronunciando com todas as letras seret cachol. O cara riu, claro. E pergutou se eu queria seret cachol de banot, garotas. Não entendi, claro.

Fora dado e sem a fita azul, saí da loja e fui comprar meu primeiro eletrodoméstico, para encarar o verão que ainda nem chegou (mas já está derretendo nervos), um ventilador. Acabei de montar e de instalar em uma tomada roubada do despertador - refrescar é preciso, acordar não é preciso.

E agora, vento na nuca, ouvindo um pouco de músicas variadas e um tal de Damien Rice, penso na boa fase que vou levando. Mesmo com a decisão de adiar os estudos, porque existem coisas mais urgentes na vida nova. E enquanto viajo nos pensamentos passeio por São Paulo, minha cidade da nostalgia. E penso nas pessoas que de repente me avisaram que vêm para cá...

24.6.05

Mãe, esse bicho bobo!
Cena de ontem: a mãe, nova, não mais de 30 anos, sobe no ônibus com o carrinho da filha, novinha, alguns meses apenas. Pede ajuda (a minha ajuda) para segurar o carrinho enquanto vai até o motorista pagar a passagem. Volta, agradece. E passa a cuidar do movimento do carrinho em cada curva, em cada vez que o ônibus freia bruscamente, em cada aceleração exagerada.

Ela dá água para a bebê, que parecia ter sede. E aí, entre um e outro gole, agachada diante do carrinho e com os olhos brilhando com os olhos da criança, ela começa a beijar os pezinhos, a mão pequenininha, faz carinho no cabelo e no braço da menina, tão carente e tão entregue ao amor e aos cuidados da mãe. E a mãe deslumbrada, ainda. Ainda e sempre, para sempre.

Não tem nada como amor de mãe. Saudade da minha.

21.6.05

Histórias de ônibus
O sistema de transporte em Israel até que é bem eficiente. O tamanho reduzido do país e das distâncias ajuda, sem dúvida. Os passageiros é que por aqui não são muito eficientes. A entrada no ônibus pode ser uma briga de cotovelos que pode durar até quinze minutos em um parada em horário de pico.

Como ontem. Entrei no ônibus, falafel numa mão e cartão chofshi chodshi na outra, em meio a um monte de gente. Logo na primeira fileira uma velha de pé brigava com um velho sentado que, não acreditei, não concordou em deixá-la sentar na cadeira ao lado, que ele usava para acomodar o carrinho de feira vazio e dobrado.

Num determinado momento, sem desistir da idéia de sentar ali, a velha disse num tom tão didático que humilhou o velho: "isso é transporte público, serve para ortodoxos, laicos, árabes, pra todo mundo... Se você quer conforto, vá pegar um táxi". Deu vontade de aplaudir a velhinha, mas aprendi que aqui não vale a pena comprar briga dos outros. Até porque ela ganhou a parada e sentou lá.

Hoje outra cena memorável. Indo para o jornal reparei na menina que fazia a segurança da parada(*) - ela mesma de parar o trânsito, linda, linda. Em geral esses seguranças abordam os suspeitos para tentar ouvir um sotaque árabe demais ou descobrir algo que os menos atentos deixam passar. Pois bem, a menina abordou um sujeito (que até eu, leigo, dei por suspeito) e o cara fingia que não era com ele...

Dessa vez deu vontade de comprar a briga, mas não me esqueci da lição aprendida. Fiquei na minha. O ônibus 8, o meu, chegou e o cara subiu. Eu deixei passar. Aproveitei para puxar papo com a segurança, dizendo como o sujeito tinha sido ousado. Ela, seca, respondeu que faltou educação em casa. Concordei e vi na feição dela a preocupação por ter deixado o cara tomar o oito.

E enquanto esperava o outro 8, que demorou, ia dando meu lugar no banco do ponto para um velhinho quando ele disse: "fica, meu filho, tem lugar para todo o povo aqui", usando a palavra hebraica "am". Foi a frase do dia! Dei risada, sentando de volta ao lado dele, e ele retribuiu. Histórias de ônibus...

Glossário
Chofshi chodshi, que literalmente signfica "mensal livre", é o nome do cartão que se compra mensalmente para andar livremente de ônibus. É mais ou menos como ser o personagem de Carne Trêmula, de Almodovar, mas com a necessidade de renovar o direito mediante pagamento a cada trinta dias, em média!

(*) As principais e mais movimentadas paradas de ônibus em Israel têm seguranças vestidos com um unforme transado e - sempre - óculos escuros. A idéia é não deixar um indivíduo suspeito tomar o ônibus. Mas na verdade o efeito é muito mais psicológico (a população fica tranqüila ao saber que vai sendo cuidada) do que prático.