De volta ao kibutz
O programa do fim de semana foi uma volta ao passado, em alguma medida: visitar o kibutz En Dor, onde morei em 2002 durante os seis meses mais decisivos da minha vida. E, lá, rever as pessoas que conviveram comigo. Muitas na mesma, paradas no tempo. Outras totalmente diferentes. O tempo passou...
A verdade é que a visita, dessa vez com a namorada, foi diferente da que fiz ano passado, sozinho. Não só pela namorada, mas porque dessa vez não fiquei com aquela impressão azeda de que a música tem razão ao dizer que nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia. Não será, isso é certo. Mas diferente pode ser melhor, nem sempre pior. Vi quem importa e quem se importa. E bastou.
Fim do shabat, hora de voltar pra capital, pra vida real. E de deixar pra trás, sabe-se lá por quanto tempo, de novo, aquele pedacinho de Israel que foi onde o amor por esse país começou a surgir, em meio ao cheiro de merda de vaca ao amanhecer e trabalhando no jardim alheio.
Demorou, mas me dei conta de que saudade não precisa ser só de pessoas ou de locais, mas também de um tempo que representou muito na vida da gente. Guardo En Dor no coração porque aqueles seis meses foram muito importantes pra mim. Decisivos, como eu disse. Talvez eu nunca estaria aqui hoje se não tivesse estado lá em 2002...
Glossário
Kibutz é uma comunidade basicamente agrícola em que vivem pessoas dentro de um sistema socialista. Essa definição não mais se aplica aos kibutzim atuais. Dos 270 existente em Israel com esse nome, os que realmente sobreviveram são sustentados pelo capitalismo! Os outros viraram grandes "bairros", apenas. E privatizaram tudo. En Dor é um exemplo da segunda categoria.
Baseado em fatos reais...
Diretamente de 31.78/35.22, mais conhecida como Jerusalém, escrevo para quem quiser ler - um pouco da vida e do dia-a-dia de um sujeito perdido em Israel.
14.3.05
10.3.05
Nas asas de uma borboleta
Some people want to forget the past, some people want to change it
Change one thing; Change everything
Do you think we will be together forever?
Tudo isso de The butterfly effect, que eu preciso rever.
Some people want to forget the past, some people want to change it
Change one thing; Change everything
Do you think we will be together forever?
Tudo isso de The butterfly effect, que eu preciso rever.
9.3.05
(De novo)
Careca
Vocês sabem que eu estou careca?
Careca
Voces sabem que eu estou careca? Espiem em http://www.fotolog.net/gabo_em_israel/?pid=9196016. Quando eu chegar em casa, acentuo e coloco os links como se deve. Agora estou na aula de computacao. E aqui nao tem acento. Um tedio so!
Careca
Vocês sabem que eu estou careca?
Careca
Voces sabem que eu estou careca? Espiem em http://www.fotolog.net/gabo_em_israel/?pid=9196016. Quando eu chegar em casa, acentuo e coloco os links como se deve. Agora estou na aula de computacao. E aqui nao tem acento. Um tedio so!
8.3.05
Sim, vivo
Quando você deixa de escrever e as pessoas reclamam, escrevem e até ligam, é bom sinal. Sinal, pelo menos, de que as pessoas lêem o que você escreve. E dia desses descobri novos leitores, na família! Gulp...!
A vida vai bem. Namorada por aqui, depois de oito meses longe. Estranho, até. Dá a sensação de que nos conhecemos no aeroporto, sexta-feira passada, e não três anos atrás. Estranho. Mas bom, muito bom!
Fora a namorada, estudo, estudo, estudo e insistir com a professora para não me baixar de sala. Ela quer, bate na tecla todo dia; eu sei que se baixar me desmotivo. Prometi me esforçar para acompanhar melhor a turma. Promessa difícil de cumprir!
E trabalho, quase nada. Deixei o Aroma de lado uns dias. Não dá para conciliar oito horas diárias de trabalho lá e o estudo que eu prometi para a professora. Impossível. Estou exausto e não é porque a namorada chegou!
Hoje estive em Gilo, bairro de Jerusalém com residências de luxo. Cercado por quase todos os lados por vilas árabes. Lá moram os donos do meu apê, um casal de velhinhos simpáticos. Fui pagar o aluguel, deixar os cheques até o final do ano.
No caminho, vi duas coisas que preferia saber que não existem, mas existem. Sou daqueles que não gostam de tapar o sol com a peneira. Numa placa trilíngüe de trânsito indicando direções, o árabe estava pichado e, por cima dele, a infeliz frase "morte aos árabes".
Menos fundamentalista e mais necessário e compreensível em dias de não-paz foi ver, mesmo assim triste e indignado, policiais de fronteira parando um micro-ônibus cheio de palestinos e revistando um por um. Será que vai chegar o dia em que não precisaremos mais disso tudo?
Quando você deixa de escrever e as pessoas reclamam, escrevem e até ligam, é bom sinal. Sinal, pelo menos, de que as pessoas lêem o que você escreve. E dia desses descobri novos leitores, na família! Gulp...!
A vida vai bem. Namorada por aqui, depois de oito meses longe. Estranho, até. Dá a sensação de que nos conhecemos no aeroporto, sexta-feira passada, e não três anos atrás. Estranho. Mas bom, muito bom!
Fora a namorada, estudo, estudo, estudo e insistir com a professora para não me baixar de sala. Ela quer, bate na tecla todo dia; eu sei que se baixar me desmotivo. Prometi me esforçar para acompanhar melhor a turma. Promessa difícil de cumprir!
E trabalho, quase nada. Deixei o Aroma de lado uns dias. Não dá para conciliar oito horas diárias de trabalho lá e o estudo que eu prometi para a professora. Impossível. Estou exausto e não é porque a namorada chegou!
Hoje estive em Gilo, bairro de Jerusalém com residências de luxo. Cercado por quase todos os lados por vilas árabes. Lá moram os donos do meu apê, um casal de velhinhos simpáticos. Fui pagar o aluguel, deixar os cheques até o final do ano.
No caminho, vi duas coisas que preferia saber que não existem, mas existem. Sou daqueles que não gostam de tapar o sol com a peneira. Numa placa trilíngüe de trânsito indicando direções, o árabe estava pichado e, por cima dele, a infeliz frase "morte aos árabes".
Menos fundamentalista e mais necessário e compreensível em dias de não-paz foi ver, mesmo assim triste e indignado, policiais de fronteira parando um micro-ônibus cheio de palestinos e revistando um por um. Será que vai chegar o dia em que não precisaremos mais disso tudo?
5.3.05
3.3.05
Ahava ze col ha sipur
Uma das cenas mais marcantes, para mim, do filme It's all about love é a final, em que pessoas do mundo real, e não apenas atores, vêm e vão num aeroporto inglês. Entre beijos e abraços, despedidas e reencontros, a música dá o tom romântico da película.
Estou agora no Natbag, sigla carinhosa do Aeroporto Ben Gurion. Segunda vez que venho para o Terminal 3, o mais novo, bem novo, inaugurado no ano passado. Estou no saguão de desembarque, um lugar enorme, cheio de colunas altíssimas e com o mesmo clima do filme!
Ainda faltam duas horas para a chegada dela. Aproveito o tempo, já que tive que tomar em Jerusalém o último ônibus que vinha pra cá, para escrever. O que mais posso fazer? Confesso que trouxe meus cadernos do Taka, mas como controlar a ansiedade para estudar?
Tenho um olho na tela do laptop, outro no painel eletrônico com as informações dos vôos. O dela, LY 382, vindo de Milão, Itália, já figura, no final da lista (bom sinal, pelo menos não vim no dia errado!). O status: FINAL.
Atrás de mim há algumas lojinhas, de flores, balões, livros, jornais em muitos idiomas, aluguel de celular, comida. Já passei por todas elas, olhei cada livro e cada manchete nos idiomas que conheço! Não tenho fome, mas já gastei uns trocados na máquina de guloseimas...
Já estou no momento de sequer ter o que escrever, mais. Muita ansiedade. Oito meses desde o último aeroporto, o de Guarulhos, em São Paulo. E a sensação estranha de não saber como vai ser o reencontro tão ansiado depois de tanto tempo.
Que passe logo o tempo.
Glossário
Ahava ze col ha sipur, o título do post, é também o título do filme que eu mencionei, em hebraico. Significa literalmente "amor é toda a história". As traducões de nomes de filmes aqui são mais fiéis. É bem parecido com o original "It's all about love".
PS.: se você lê esse blog e está no Orkut, então precisa entrar na comunidade que eu criei, porque sou umbiguista! Como eu escrevi lá, é a comunidade de quem lê o blog, de quem caiu aqui por acaso e se apaixonou pelo que leu, para quem já se emocionou, entristeceu, aprendeu, ficou puto com algum post...
Uma das cenas mais marcantes, para mim, do filme It's all about love é a final, em que pessoas do mundo real, e não apenas atores, vêm e vão num aeroporto inglês. Entre beijos e abraços, despedidas e reencontros, a música dá o tom romântico da película.
Estou agora no Natbag, sigla carinhosa do Aeroporto Ben Gurion. Segunda vez que venho para o Terminal 3, o mais novo, bem novo, inaugurado no ano passado. Estou no saguão de desembarque, um lugar enorme, cheio de colunas altíssimas e com o mesmo clima do filme!
Ainda faltam duas horas para a chegada dela. Aproveito o tempo, já que tive que tomar em Jerusalém o último ônibus que vinha pra cá, para escrever. O que mais posso fazer? Confesso que trouxe meus cadernos do Taka, mas como controlar a ansiedade para estudar?
Tenho um olho na tela do laptop, outro no painel eletrônico com as informações dos vôos. O dela, LY 382, vindo de Milão, Itália, já figura, no final da lista (bom sinal, pelo menos não vim no dia errado!). O status: FINAL.
Atrás de mim há algumas lojinhas, de flores, balões, livros, jornais em muitos idiomas, aluguel de celular, comida. Já passei por todas elas, olhei cada livro e cada manchete nos idiomas que conheço! Não tenho fome, mas já gastei uns trocados na máquina de guloseimas...
Já estou no momento de sequer ter o que escrever, mais. Muita ansiedade. Oito meses desde o último aeroporto, o de Guarulhos, em São Paulo. E a sensação estranha de não saber como vai ser o reencontro tão ansiado depois de tanto tempo.
Que passe logo o tempo.
Glossário
Ahava ze col ha sipur, o título do post, é também o título do filme que eu mencionei, em hebraico. Significa literalmente "amor é toda a história". As traducões de nomes de filmes aqui são mais fiéis. É bem parecido com o original "It's all about love".
PS.: se você lê esse blog e está no Orkut, então precisa entrar na comunidade que eu criei, porque sou umbiguista! Como eu escrevi lá, é a comunidade de quem lê o blog, de quem caiu aqui por acaso e se apaixonou pelo que leu, para quem já se emocionou, entristeceu, aprendeu, ficou puto com algum post...
2.3.05
Ansiedade
Acepções (*)
substantivo feminino
1 grande mal-estar físico e psíquico; aflição, agonia
Ex.: a demora no atendimento causava-lhe a.
2 Derivação: sentido figurado.
desejo veemente e impaciente
Ex.: com grande a. aguardava o seu casamento
3 Derivação: sentido figurado.
falta de tranqüilidade; receio
Ex.: com a., procurava um lugar para ocultar-se
4 Rubrica: psicopatologia.
estado afetivo penoso, caracterizado pela expectativa de algum perigo que se revela indeterminado e impreciso, e diante do qual o indivíduo se julga indefeso
Acepções (*)
substantivo feminino
1 grande mal-estar físico e psíquico; aflição, agonia
Ex.: a demora no atendimento causava-lhe a.
2 Derivação: sentido figurado.
desejo veemente e impaciente
Ex.: com grande a. aguardava o seu casamento
3 Derivação: sentido figurado.
falta de tranqüilidade; receio
Ex.: com a., procurava um lugar para ocultar-se
4 Rubrica: psicopatologia.
estado afetivo penoso, caracterizado pela expectativa de algum perigo que se revela indeterminado e impreciso, e diante do qual o indivíduo se julga indefeso
1.3.05
Instalatztor
De repente, eu sozinho em casa quebrando a cabeça com um texto, toca a campainha. Não estava esperando ninguém, mas fui ver quem era. O olho mágico revela uma mulher e um cara, totalmente estranhos. Abro a porta, sem o medo que teria se estivesse em São Paulo - talvez seja só ingenuidade...
Ela, a vizinha do 14, diz que conversou com a minha shutafá, que a essas horas deve estar no verão argentino, já. Algo sobre a ambatia, consertos na casa, e que tinha trazido o Samy, o magricela ali ao lado, para dar uma olhada. A Paula, minha shutafá, deve ter esquecido de me dizer - culpa da correria, mal nos encontramos nos últimos dias antes da viagem.
E eles vão entrando, despejando palavras em hebraico. Palavras desconhecidas, porque naturalmente eu ainda não conheço o vocabulário de reparos domésticos: pintar o teto do banheiro, arrumar a infiltração do teto da sala, comprar outro exaustor, trocar o teto da mirpeset, consertar a persiana das chalonot...
Depois, o magricela Samy anota o telefone num papel, pede para eu falar com o proprietário do cafofo e depois ligar pra ele, e vai embora. Dou risada quando fecho a porta e percebo que, embora não tenha ainda o vocabulário, só falei com eles em hebraico! Assim, também, se aprende o idioma!
Ah! Tive aula de inglês hoje. É, inglês, "the book is on the table" e aquela coisa toda. Fiz na semana passada uma prova pra descobrir em que sala iam me botar. Tirei 96, fiquei na mais alta. Queria não precisar fazer, pô. Mas para isso, e pro ptor, devia ter conseguido 100...
Glossário
Instalatztor é do que trabalha o Samy, meu visitante do dia. Algo como "reparos domésticos", "faço qualquer serviço na sua casa por um bom precinho", "você precisa trocar a rebimbola da parafuseta do exaustor". Esse mesmo.
Shutafá, meus dois leitores já sabem, é flatmate. As minhas três, a Paula, a Melina (irmãs de Buenos Aires) e a Carolina (que é de Mendoza) estão curtindo férias na Argentina. Ainda bem. Quarenta e cinco dias com a casa só pra mim. A casa e as contas, claro.
Ambatia é dessas palavras engraçadas do hebraico. Significa o banheiro do banho. Sim, porque em geral os banheiros aqui são separados: em um se toma banho, no outro se faz "o resto"... Mas em casa não é assim, é tudo em um só, como provavelmente na sua casa no Brasil!
Mirpeset é sacada, varanda, terraço. Ou, como aqui em casa, o espaço externo, que na verdade são dois, um coberto e outro ao ar livre, que vai abrigar churrascos no verão! Aliás, já está na hora de o verão voltar...
Chalonot é o plural de chalon, janela. Não confundir com chalom, que é sonho (o de sonhar, não o de comer - o de comer é sufganiá, mas não estamos na época. Esse papo me deu uma fome... Pudera, são sete da noite e ainda não almocei hoje).
Ptor é aquilo que se consegue em inglês com nota 100 em uma prova ou em hebraico depois de dois anos de estudo, mais ou menos! Não sei a tradução, ainda não tenho ptor! Vou procurar.
De repente, eu sozinho em casa quebrando a cabeça com um texto, toca a campainha. Não estava esperando ninguém, mas fui ver quem era. O olho mágico revela uma mulher e um cara, totalmente estranhos. Abro a porta, sem o medo que teria se estivesse em São Paulo - talvez seja só ingenuidade...
Ela, a vizinha do 14, diz que conversou com a minha shutafá, que a essas horas deve estar no verão argentino, já. Algo sobre a ambatia, consertos na casa, e que tinha trazido o Samy, o magricela ali ao lado, para dar uma olhada. A Paula, minha shutafá, deve ter esquecido de me dizer - culpa da correria, mal nos encontramos nos últimos dias antes da viagem.
E eles vão entrando, despejando palavras em hebraico. Palavras desconhecidas, porque naturalmente eu ainda não conheço o vocabulário de reparos domésticos: pintar o teto do banheiro, arrumar a infiltração do teto da sala, comprar outro exaustor, trocar o teto da mirpeset, consertar a persiana das chalonot...
Depois, o magricela Samy anota o telefone num papel, pede para eu falar com o proprietário do cafofo e depois ligar pra ele, e vai embora. Dou risada quando fecho a porta e percebo que, embora não tenha ainda o vocabulário, só falei com eles em hebraico! Assim, também, se aprende o idioma!
Ah! Tive aula de inglês hoje. É, inglês, "the book is on the table" e aquela coisa toda. Fiz na semana passada uma prova pra descobrir em que sala iam me botar. Tirei 96, fiquei na mais alta. Queria não precisar fazer, pô. Mas para isso, e pro ptor, devia ter conseguido 100...
Glossário
Instalatztor é do que trabalha o Samy, meu visitante do dia. Algo como "reparos domésticos", "faço qualquer serviço na sua casa por um bom precinho", "você precisa trocar a rebimbola da parafuseta do exaustor". Esse mesmo.
Shutafá, meus dois leitores já sabem, é flatmate. As minhas três, a Paula, a Melina (irmãs de Buenos Aires) e a Carolina (que é de Mendoza) estão curtindo férias na Argentina. Ainda bem. Quarenta e cinco dias com a casa só pra mim. A casa e as contas, claro.
Ambatia é dessas palavras engraçadas do hebraico. Significa o banheiro do banho. Sim, porque em geral os banheiros aqui são separados: em um se toma banho, no outro se faz "o resto"... Mas em casa não é assim, é tudo em um só, como provavelmente na sua casa no Brasil!
Mirpeset é sacada, varanda, terraço. Ou, como aqui em casa, o espaço externo, que na verdade são dois, um coberto e outro ao ar livre, que vai abrigar churrascos no verão! Aliás, já está na hora de o verão voltar...
Chalonot é o plural de chalon, janela. Não confundir com chalom, que é sonho (o de sonhar, não o de comer - o de comer é sufganiá, mas não estamos na época. Esse papo me deu uma fome... Pudera, são sete da noite e ainda não almocei hoje).
Ptor é aquilo que se consegue em inglês com nota 100 em uma prova ou em hebraico depois de dois anos de estudo, mais ou menos! Não sei a tradução, ainda não tenho ptor! Vou procurar.
28.2.05
O fazer blog
Permita-me, caro leitor, fazer um post metalingüístico! Quero escrever sobre como é escrever um blog. Tem gente que não sabe que fazer blog, o que muitos acham que é bobagem, requer tempo. Não apenas o tempo de sentar e espancar o teclado, produzindo posts que emocionam, fazem rir, dão o recado, mas o tempo de pensar neles.
Confesso, caro leitor, que tenho o vício de pensar no meu blog o dia todo. Cada situação que ocorre na minha vida, no trabalho, nos estudos, andando na rua, sentado no banheiro, tomando uma ducha, batendo um papo etc, eu enxergo com outros olhos: os olhos do blogueiro!
Ontem, por exemplo, limpando uma mesa onde duas judias ortodoxas conversavam, não pude deixar de prestar atenção no papo. Elas não sabiam que eu, por acaso, entendo espanhol como se fosse português. Eu não contei pra elas. E flagrei duas judias ortodoxas de peruca e vestido comprido contando das calcinhas que estavam usando...! Foi hilário.
Mais hilário, contudo, naquele mesmo momento, esfregando a mesa como se eu fosse uma mosquinha ouvindo um diálogo que não deveria ouvir, foi imaginar isso transformado no que eu acabei de escrever, nessas seis linhas aí! Tive que segurar para não rir, sério!
Fazer blog é delicioso. Mas o blog não é um espelho da alma, não! Tem gente que pensa que conto tudo aqui! Engano redondo... E, daí, quem lê o blog, o que escrevo, o que confesso (e confesso muita coisa por aqui), o que denuncio, o que conto, não necessariamente me conhece. Tá?
Bom, sete da manhã no Oriente Médio. Hora de sair para estudar.
Permita-me, caro leitor, fazer um post metalingüístico! Quero escrever sobre como é escrever um blog. Tem gente que não sabe que fazer blog, o que muitos acham que é bobagem, requer tempo. Não apenas o tempo de sentar e espancar o teclado, produzindo posts que emocionam, fazem rir, dão o recado, mas o tempo de pensar neles.
Confesso, caro leitor, que tenho o vício de pensar no meu blog o dia todo. Cada situação que ocorre na minha vida, no trabalho, nos estudos, andando na rua, sentado no banheiro, tomando uma ducha, batendo um papo etc, eu enxergo com outros olhos: os olhos do blogueiro!
Ontem, por exemplo, limpando uma mesa onde duas judias ortodoxas conversavam, não pude deixar de prestar atenção no papo. Elas não sabiam que eu, por acaso, entendo espanhol como se fosse português. Eu não contei pra elas. E flagrei duas judias ortodoxas de peruca e vestido comprido contando das calcinhas que estavam usando...! Foi hilário.
Mais hilário, contudo, naquele mesmo momento, esfregando a mesa como se eu fosse uma mosquinha ouvindo um diálogo que não deveria ouvir, foi imaginar isso transformado no que eu acabei de escrever, nessas seis linhas aí! Tive que segurar para não rir, sério!
Fazer blog é delicioso. Mas o blog não é um espelho da alma, não! Tem gente que pensa que conto tudo aqui! Engano redondo... E, daí, quem lê o blog, o que escrevo, o que confesso (e confesso muita coisa por aqui), o que denuncio, o que conto, não necessariamente me conhece. Tá?
Bom, sete da manhã no Oriente Médio. Hora de sair para estudar.
27.2.05
De volta, mas correndo
"The calm period with the [Palestinian] Authority was
an agreement for a month and that has ended"
Abu Tareq, member of Islamic Jihad's
Damascus-based political bureau
22.2.05
Esqueceram de mim
Lembram do título original do filme que lançou o Macaulay Culkin? Era Home alone! Pois é exatamente assim, home alone, que vou ficar a partir da próxima segunda-feira. É que as minhas três shutafot, todas elas, vão para a Argentina. Na verdade só duas iam, mas a terceira ganhou a passagem do pai e vai para o casamento de uma amiga. Fica um mês. As outras duas, 45 dias.
Mas, com oito dias faltando para a chegada do meu amor, eu só vou ficar home alone durante a semana que vem. Vai ser o tempo de faxinar a casa, fazer as compras do mês, lavar a roupa acumulada, preparar tudo! E arrumar desculpas para faltar no trabalho - afinal, quase oito meses se passaram desde que eu saí do Brasil!
Lembram do título original do filme que lançou o Macaulay Culkin? Era Home alone! Pois é exatamente assim, home alone, que vou ficar a partir da próxima segunda-feira. É que as minhas três shutafot, todas elas, vão para a Argentina. Na verdade só duas iam, mas a terceira ganhou a passagem do pai e vai para o casamento de uma amiga. Fica um mês. As outras duas, 45 dias.
Mas, com oito dias faltando para a chegada do meu amor, eu só vou ficar home alone durante a semana que vem. Vai ser o tempo de faxinar a casa, fazer as compras do mês, lavar a roupa acumulada, preparar tudo! E arrumar desculpas para faltar no trabalho - afinal, quase oito meses se passaram desde que eu saí do Brasil!
20.2.05
Começou!
O Taka, tochnit kdam academait, começou... Agora, fim da farra! Aulas todos os dias: hebraico, estatística, inglês, computação... Provas, estudar...
Glossário
Tochnit é "programa". Kdam, "pré". Academait, "acadêmico". Taka, então, é a abreviatura de "programa preparatório acadêmico", algo assim. Pro inglês, traduzem como pre-academic program Dá no mesmo, não dá?!
O Taka, tochnit kdam academait, começou... Agora, fim da farra! Aulas todos os dias: hebraico, estatística, inglês, computação... Provas, estudar...
Glossário
Tochnit é "programa". Kdam, "pré". Academait, "acadêmico". Taka, então, é a abreviatura de "programa preparatório acadêmico", algo assim. Pro inglês, traduzem como pre-academic program Dá no mesmo, não dá?!
19.2.05
Instantes, os seus e os meus
Queria contar quem foi o personagem Aroma do dia, do primeiro sábado de trabalho. Queria contar da menina árabe que me desmontou. Queria falar da emoção que senti quando uma avó me pediu para dizer ao neto que tomasse o leite, como a minha avó fazia comigo. Queria dizer que meu pai veio conhecer minha casa, depois de dois meses, e passou o Shabat aqui. Queria contar tanta coisa de hoje.
Mas não vou contar nada. Vou apenas publicar uma poesia, de Pessoa. E dizer mais nada. Pra bom entendedor, meia dúzia de palavras bem encaixadas basta. Tem Instantes que me deixam arrepiado.
Boa semana. Amanhã volto aos estudos! Hebraico na veia!
Se recordo quem fui, outrem me vejo,
E o passado é o presente na lembrança.
Quem fui é alguém que amo
Porém somente em sonho.
E a saudade que me aflige a mente
Não é de mim nem do passado visto,
Senão de quem habito
Por trás dos olhos cegos.
Nada, senão o instante, me conhece.
Minha mesma lembrança é nada, e sinto
Que quem sou e quem fui
São sonhos diferentes.
Queria contar quem foi o personagem Aroma do dia, do primeiro sábado de trabalho. Queria contar da menina árabe que me desmontou. Queria falar da emoção que senti quando uma avó me pediu para dizer ao neto que tomasse o leite, como a minha avó fazia comigo. Queria dizer que meu pai veio conhecer minha casa, depois de dois meses, e passou o Shabat aqui. Queria contar tanta coisa de hoje.
Mas não vou contar nada. Vou apenas publicar uma poesia, de Pessoa. E dizer mais nada. Pra bom entendedor, meia dúzia de palavras bem encaixadas basta. Tem Instantes que me deixam arrepiado.
Boa semana. Amanhã volto aos estudos! Hebraico na veia!
Se recordo quem fui, outrem me vejo,
E o passado é o presente na lembrança.
Quem fui é alguém que amo
Porém somente em sonho.
E a saudade que me aflige a mente
Não é de mim nem do passado visto,
Senão de quem habito
Por trás dos olhos cegos.
Nada, senão o instante, me conhece.
Minha mesma lembrança é nada, e sinto
Que quem sou e quem fui
São sonhos diferentes.
17.2.05
Devagar, devagar, devagarinho
Tem uma coisa que todo israelense devia saber: não há nada melhor para um ole chadash do que ouvir que o hebraico dele está melhorando. Hoje foi dia de reencontro lá no Aroma com pessoas com quem trabalhei há alguns meses, uma delas quando eu nem conseguia falar ivrit e acabava só usando inglês, mesmo. E ela disse: "seu hebraico melhorou muito!" Ganhei o dia.
Pudera... Estou aqui há sete meses e meio (completo "meio" no domingo, meu primeiro dia de aula, de novo!), trabalho com israelenses e procuro falar o quanto posso, embora more com três argentinas e em casa o espanhol seja oficial. Tenho alguns amigos israelenses, com quem só falo, ainda que errando, hebraico. Se, com tudo isso, eu não melhorar, então como?!
Mas não tem forma melhor de comprovar a hitcadmut do idioma do que brigando! Hoje briguei em hebraico, pra receber uma grana que um hotel me deve há um tempo... Briguei mesmo, impondo a voz e tudo! Saí sem o cheque, mas me comuniquei! Dei o recado. Pela primeira vez, acho, usei a palavra pitaron, solução!
E trabalhei pacas no Aroma hoje! Pacas. Quinta-feira só não é pior que sexta, e amanhã trabalho de novo, de manhã, até começar o shabat. Muita gente, muito barulho, muita mesa pra limpar... Teve até um artista que resolveu pintar a mesa com tinta, só pra me dar mais trabalho. Super legal ele.
E, enquanto esfregava o pano pra tirar as manchas do infeliz, escolhi o personagem Aroma do dia: na mesa ao lado, três pessoas, dois caras e uma mulher. Trinta e poucos anos, cada um. A moçona ameaçando o moção de jogar o celular dele do alto do terceiro andar do shopping; o moção, de jogar uma nota de NIS 50 (uns onze dólares) lá pra baixo. Não pude conter a risada. Eles perceberam e o terceiro comentou: "isso porque eles vão se casar mês que vem..." Ganhou o troféu o cara, pelo "humor"!
Chega, cama!
Em tempo: o 23a. idade passou por uma reforma, para quem não reparou. Links defuntos foram devidamente enterrados, com todas as honras, voltei a colocar meu livro de cabeceira, reduzi o número de posts na página inicial e embarquei em uma campanha, lá quase no rodapé, pela saída já de Gaza. Se alguém reparar em um link quebrado ou algo que precise ser arrumado, é favor avisar!
Glossário
Olê chadash, literalmente "aquele que sobre" + "novo", é como chamam por aqui os imigrantes, as pessoas corajosas que fazem aliah, "subida", em referência à ascenção espiritual em direção a Israel. Uma vez discutimos em sala, no ulpan, se olê e imigrante são a mesma coisa. Embora o significado da palavra seja sim o mesmo, a simbologia é toda outra. E, acabei de descobrir, olê também significa "peregrino"!
Ivrit é ivrit em ivrit! Portuguezit é portuguezit em ivrit... Sacou?
Hitcadmut, que vem de lehitcadem, avançar, é avanço. Lento, mas avanço! Aliás, o hebraico é tão legal que tem uma palavra especial para designar "avanço lento": histarchut. É o meu caso, não restam dúvidas!
Ulpan, que também significa "estúdio" (de TV, esse mesmo!), é onde os olim chadashim (plural de olê chadash) estudam em forma intensiva o idioma, ao chegar ao país, geralmente!
Tem uma coisa que todo israelense devia saber: não há nada melhor para um ole chadash do que ouvir que o hebraico dele está melhorando. Hoje foi dia de reencontro lá no Aroma com pessoas com quem trabalhei há alguns meses, uma delas quando eu nem conseguia falar ivrit e acabava só usando inglês, mesmo. E ela disse: "seu hebraico melhorou muito!" Ganhei o dia.
Pudera... Estou aqui há sete meses e meio (completo "meio" no domingo, meu primeiro dia de aula, de novo!), trabalho com israelenses e procuro falar o quanto posso, embora more com três argentinas e em casa o espanhol seja oficial. Tenho alguns amigos israelenses, com quem só falo, ainda que errando, hebraico. Se, com tudo isso, eu não melhorar, então como?!
Mas não tem forma melhor de comprovar a hitcadmut do idioma do que brigando! Hoje briguei em hebraico, pra receber uma grana que um hotel me deve há um tempo... Briguei mesmo, impondo a voz e tudo! Saí sem o cheque, mas me comuniquei! Dei o recado. Pela primeira vez, acho, usei a palavra pitaron, solução!
E trabalhei pacas no Aroma hoje! Pacas. Quinta-feira só não é pior que sexta, e amanhã trabalho de novo, de manhã, até começar o shabat. Muita gente, muito barulho, muita mesa pra limpar... Teve até um artista que resolveu pintar a mesa com tinta, só pra me dar mais trabalho. Super legal ele.
E, enquanto esfregava o pano pra tirar as manchas do infeliz, escolhi o personagem Aroma do dia: na mesa ao lado, três pessoas, dois caras e uma mulher. Trinta e poucos anos, cada um. A moçona ameaçando o moção de jogar o celular dele do alto do terceiro andar do shopping; o moção, de jogar uma nota de NIS 50 (uns onze dólares) lá pra baixo. Não pude conter a risada. Eles perceberam e o terceiro comentou: "isso porque eles vão se casar mês que vem..." Ganhou o troféu o cara, pelo "humor"!
Chega, cama!
Em tempo: o 23a. idade passou por uma reforma, para quem não reparou. Links defuntos foram devidamente enterrados, com todas as honras, voltei a colocar meu livro de cabeceira, reduzi o número de posts na página inicial e embarquei em uma campanha, lá quase no rodapé, pela saída já de Gaza. Se alguém reparar em um link quebrado ou algo que precise ser arrumado, é favor avisar!
Glossário
Olê chadash, literalmente "aquele que sobre" + "novo", é como chamam por aqui os imigrantes, as pessoas corajosas que fazem aliah, "subida", em referência à ascenção espiritual em direção a Israel. Uma vez discutimos em sala, no ulpan, se olê e imigrante são a mesma coisa. Embora o significado da palavra seja sim o mesmo, a simbologia é toda outra. E, acabei de descobrir, olê também significa "peregrino"!
Ivrit é ivrit em ivrit! Portuguezit é portuguezit em ivrit... Sacou?
Hitcadmut, que vem de lehitcadem, avançar, é avanço. Lento, mas avanço! Aliás, o hebraico é tão legal que tem uma palavra especial para designar "avanço lento": histarchut. É o meu caso, não restam dúvidas!
Ulpan, que também significa "estúdio" (de TV, esse mesmo!), é onde os olim chadashim (plural de olê chadash) estudam em forma intensiva o idioma, ao chegar ao país, geralmente!
16.2.05
O de sempre?
O personagem Aroma do dia, ontem, foi um simpático casal de velhinhos. Chegaram cedo, sentaram em uma mesa de canto, tranqüilos. Ela se pôs a bordar; ele a fazer palavras-cruzadas em hebraico. E tomando café Aroma, claro. Quando eles chegaram e ele foi fazer o pedido, perguntou pra ela o que ia querer. Ela disse algo em um murmúrio e ele captou, respondendo: "Ah, o de sempre, né?" Adoro essa coisa de cumplicidade entre os casais, raramente vistas entre os mais novos na idade e no tempo de relacionamento.
Hoje fiz algo que há muito não fazia: comprei uma baguete no supermercado e fui comendo no caminho, como quando era criança e minha mãe fazia compras de mês no Carrefour. Dentro do carro, na volta, o cheiro do pão quentinho era irresistível. Raramente as baguetes chegavam inteiras em casa. De fato, só as migalhas! Hoje caminhei uns cinco quilômetros comendo a baguete - não tenho carro, já sabemos!
Mas o que me irritou muito foi a chutzpá da russa que trabalha no caixa do supermercado onde comprei, além da baguete, algumas das dicas de vocês no post anterior. Enquanto eu embalava as compras, o sujeito que vinha atrás na fila perguntou se ela falava inglês. Ela respondeu, em hebraico, que "estamos em Israel, aqui não se fala inglês". Não resisti e disse ao cara, em inglês: "ela quer dizer que aqui se fala russo, nem inglês, nem hebraico"! Eize chutzpanit!
Glossário
Chutzpá pode ser trazudida por uma palavra bem precisa no português: atrevimento. E chutzpanit é "insolente", no feminino - a pessoa que tem a chutzpá de dizer coisas como as que aquela sujeitinha disse! Eize chutzpanit significa, simplesmente, "que insolente"!
O personagem Aroma do dia, ontem, foi um simpático casal de velhinhos. Chegaram cedo, sentaram em uma mesa de canto, tranqüilos. Ela se pôs a bordar; ele a fazer palavras-cruzadas em hebraico. E tomando café Aroma, claro. Quando eles chegaram e ele foi fazer o pedido, perguntou pra ela o que ia querer. Ela disse algo em um murmúrio e ele captou, respondendo: "Ah, o de sempre, né?" Adoro essa coisa de cumplicidade entre os casais, raramente vistas entre os mais novos na idade e no tempo de relacionamento.
Hoje fiz algo que há muito não fazia: comprei uma baguete no supermercado e fui comendo no caminho, como quando era criança e minha mãe fazia compras de mês no Carrefour. Dentro do carro, na volta, o cheiro do pão quentinho era irresistível. Raramente as baguetes chegavam inteiras em casa. De fato, só as migalhas! Hoje caminhei uns cinco quilômetros comendo a baguete - não tenho carro, já sabemos!
Mas o que me irritou muito foi a chutzpá da russa que trabalha no caixa do supermercado onde comprei, além da baguete, algumas das dicas de vocês no post anterior. Enquanto eu embalava as compras, o sujeito que vinha atrás na fila perguntou se ela falava inglês. Ela respondeu, em hebraico, que "estamos em Israel, aqui não se fala inglês". Não resisti e disse ao cara, em inglês: "ela quer dizer que aqui se fala russo, nem inglês, nem hebraico"! Eize chutzpanit!
Glossário
Chutzpá pode ser trazudida por uma palavra bem precisa no português: atrevimento. E chutzpanit é "insolente", no feminino - a pessoa que tem a chutzpá de dizer coisas como as que aquela sujeitinha disse! Eize chutzpanit significa, simplesmente, "que insolente"!
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