23.2.04

Dualidade
Nasci numa segunda-feira. Talvez por isso, mas só talvez, eu goste tanto de segundas-feiras. Odeio as quintas. Era às quintas, sempre, que eu tomava advertências no colégio. Estragavam o fim-de-semana todo. Outras coisas ruins aconteceram em quintas-feiras. Não me lembro delas, mas lembro que sempre eram em quintas-feiras. As sextas, por conseqüência, acabavam sendo horríveis para mim, enquanto todo mundo as amava.

Embora goste das segundas-feiras, essa segunda-feira tem aquele gosto amargo da dualidade. Querer partir e querer ficar, essas coisas. Não vai ser a primeira vez. Também não vai ser a última (com muita sorte, é só a penúltima). Mas nem isso tira o amargo da boca. Nem isso, nem eu sair pra curtir cada uma das próximas e últimas horas. Nem mesmo, acho, o chegar -terei que assimilar a chegada, vai ser tarefa complicada.

Não estou deprê, não vou chorar no avião (de novo não, vou tentar!), não vou me entregar ao ostracismo quando estiver no Brasil. Não é nada disso. É só um gosto amargo como aqueles dos finais de semana que eu passava de castigo porque tinha brigado com alguém na escola e, numa quinta qualquer, levado um papel pros meus pais assinarem em casa. Mas dói mais.
Idishenópolis
Adorei a propaganda da American Airlines em homenagem aos 450 anos de São Paulo. Diz assim (para quem não consegue ver): "o mundo é paulistano". Em seguida, mostra países, em um mapa, chamando-os pelos nomes dos bairros de São Paulo. Israel é identificado como Higienópolis!

22.2.04

Pigua
Teve um atentado, mais um, hoje de manhã em Jerusalém. Até agora há informação de 30 feridos, 10 deles em estado grave. Foi no ônibus 14. São 8h50 em Israel. A explosão ocorreu há vinte minutos. O ônibus estava lotado.

Já trago mais notícias.

[Updates]
[9h25] Foram 5 mortos. Só agora estão saindo as primeiras imagens na televisão israelense. Não há ainda informações detalhadas sobre o atentado. Nenhum grupo terrorista reconheceu a autoria do ataque até o momento. A explosão ocorreu na região de Rehavia, perto do parque Liberty Bell.

[9h55] O número de mortos subiu para 7. Os feridos são 60. Existe a possibilidade de que os explosivos usados no atentado contivessem algum agente químico, o que está sendo checado. Fala-se em fósforo.

[11h15] Como primeira resposta ao ataque terrorista, Israel decidiu impor o fechamento da região da cidade cisjordaniana de Belém, no sul de Jerusalém. Com relação ao agente químico, suspeita-se que venha de uma lata de spray que um dos passageiros tinha consigo.

[11h30] A televisão Al-Manar, do Hezbollah, no Líbano, afirmou que o terrorista palestino era Mohammed Za'el, da região de Belém. De acordo com o canal, o atentado foi executado em nome das Brigadas dos Mártires de Al Aqsa.

Aí vão os números de emergência dos hospitais, em caso de necessidade:
-- Hospital Universitário Hadassa (Ein Karem): 1255122
-- Hospital Universitário Hadassa (Monte Scopus): 1255121
-- Bikur Holim: 1255123
-- Centro Médico Shaare Zedek: 1255125

21.2.04

Nona
Existiu uma senhora de olhar doce e convidativo, sorriso aberto e acolhedor, que foi uma lutadora. Essas palavras, só elas, não bastam para defini-la, mas eu começo por aí. E não vou muito longe, porque quem conheceu a dona Marcela sabe do que estou falando e sabe que qualquer palavra é insuficiente para ela.

Minha avó, minha única avó, faleceu na última sexta-feira. Doeu muito receber a notícia de que ela se foi. Doeu mais ainda não ter estado ao seu lado nos últimos dois meses. Mas algo, aqui de longe, me dá uma dolorosa tranqüilidade: saber que o sofrimento dela, que se estendeu no último ano, acabou.

Nona, descanse em paz. Você certamente está agora em melhores mãos. Nós, aqui, rezamos por você e lembraremos sempre do teu sorriso acolhedor, da tua calma constante, do teu olhar carinhoso e dos teus conselhos.

"Life is what happens while you're busy making other plans" (J. Lennon)

20.2.04

Estou voltando pra casa
Shabat Shalom. Por aqui, é meu último antes da volta. Dia 25 estou em Sampa. Se D-s quiser, no próximo Shabat estarei em clima de faculdade, e darei um jeito para ir à sinagoga. Shabat Shalom.

19.2.04

VERÍSSIMO
'Gracas a Deus' Pense em acucar na taca, em dancar no terraco com uma moca sem jaca.

Pense no rebulico dos muculmanos, nos acudes e nos acoreanos e em acucenas sem vico.

E quem confiaria seu dinheiro a um banco suíco?

Faca como eu faco e grite sem embaraco:

"Que maravilha é a cedilha".


Da série 'Poesias numa Hora Destas?!', do domingo passado.
Seis milhões de judeus vivos


Dentro de exatos dois meses, no dia 19 de abril, será Yom HaShoá, o dia do Holocausto, em que se relembra os seis milhões de judeus mortos em campos de concentração nazistas na Segunda Guerra Mundial.

Existe um site que quer reunir seis milhões de visitas até lá. Se você é judeu dê uma passada no site -a contagem é automática, basta entrar. Se você não é judeu, passe essa mensagem a alguém que seja. A idéia não é acumular números, mas provar que existem tantos judeus vivos quanto foram os mortos na Shoá.

"If we reach the goal of reaching six million before the Holocaust Remembrance Day, we will fulfill and give back to G-d what He gave to us: 6 million Jews who are alive today who remember those who perished".

Trata-se, enfim, de manter a chama acesa. Ainda que seja só uma chama virtual. Não importa.
Shimon
Prometi, conto. Foi sensacional. Peres tem um humor incomum entre israelenses e brincou diversas vezes -como quando disse, respondendo a um deputado que sugeriu que "D-s é brasileiro", que ainda que seja mesmo brasileiro, está em Jerusalém. "Esperemos o Messias chegar".

O encontro foi tão inesperado que eu precisei pedir para tirarem uma foto minha com ele, improvisada. Coisa rara, estava sem a minha Mavica, que sempre quebra galho. Tinha ido encontrar um grupo de políticos brasileiros e de representantes de entidades judaicas no Centro Cultural Brasil-Israel, um apartamento no centro de Tel Aviv que serve para ensinar português a israelenses fascinados pelo idioma das novelas da Globo (O clone e Laços de família são sucessos aqui).

Peres pediu para retirarem todos os títulos ao dirigirem-se a ele. "Podem me chamar apenas de 'Shimon'", disse. Do alto de seus 80 anos, sendo o único líder israelense que participou da criação do Estado ainda vivo e em atividade política, fez previsões sobre o conflito ("a crise atingiu seu ápice e precisa ser resolvida com a fórmula de dois estados para dois povos", "Israel deve mudar o traçado da cerca pois a questão não é o direito de erguê-la, mas a linha que vem seguindo") e elogiou o governo brasileiro.

Escrevi para o JB a respeito, mas pelo que vi na edição online do jornal, parece que não saiu. Talvez na versão impressa. Se alguém tiver notícia da publicação dessa notícia, é favor avisar! O iG publicou Nahum.

Grandes desprazeres -série fotografia
Este saiu no Observatório da Imprensa e tem a ver com o que vive-se aqui e com algo de que o mundo pouco fala e finge que não vê. Mulher palestina "encena" foto, mostrando como a mídia manipula (ou se deixa manipular) conforme seus interesses.

Semana que vem centenas de estudantes judeus de Israel e da Europa vão se manifestar contra o terrorismo palestino em Haia, onde o Tribunal de Justiça vai julgar o caso "muro". Israel mandou o que sobrou do ônibus em que se explodiu o homem-bomba no final de janeiro. Que o mundo abra os olhos e veja as imagens reais, não as montadas.

18.2.04

Ápice
Raspa de fôrma de bolo de chocolate tem um sabor especial. É melhor que o bolo pronto, quentinho, cheiroso. Passei o dedo na fôrma desta minha viagem a Israel hoje, e o sabor foi maravilhoso. Encontro inesperado (nem tinha levado câmera) com o Shimon Peres, o maior líder israelense ainda vivo e em atividade. Foi emocionante.

Logo mais conto mais. Fechei matéria com o JB a respeito e preciso escrever.

17.2.04

Dia cheio, dia jornalístico
Tive um dia cheio. Mas foi bem divertido. E jornalístico. Estive vendo as possibilidades de estudo na Tel Aviv University -o que me ajudou a reforçar minha decisão pela Hebrew University of Jerusalem. Estive no escritório do porta-voz do Exército, onde um dia pretendo trabalhar... Estive com uma pessoa que manda notícias gravadas em português sobre Israel. E estive depois, com ela, em uma aula na Universidade Aberta com um jornalista do Yediot Acharonot, um dos principais jornais daqui. Trocamos idéia e já incluí mais um curso nos meus planos...

Se tudo se concretizar como eu estou pensando, serão cinco meses de ulpan Etzion, aprendendo hebraico, sete meses de árabe, trabalhando ao mesmo tempo em algo que me ajude com o hebraico, dois meses de ulpan kaitz (de verão) da universidade, dois anos (espero que seja menos tempo) de equivalências e três de pós. Depois, o curso de jornalismo...! E depois o Exército!

Mas aprendi que em Israel o futuro é tão imprevisível como o presente. O sensato é aproveitar cada segundo. Sem planejar muito.

E já estou melhor da gripe. Ótimo. Voar (faltam 7 dias) gripado no ar condicionado do avião não seria uma boa.

Vanilla Sky
Is it all about beauty? What about the consequences? Open your eyes.

16.2.04

Mudo
Eyes wide open
Always hoping for the sun
And she'll sing her song to anyone
that comes along

Fragile as a leaf in autumn
Just fallin' to the ground
Without a sound

(Norah Jones - Seven Years)

Estou de olhos fechados ouvindo a música ashuv ve ashuv, over and over again... Não quero dizer nada. Pra não atrapalhar a canção.
In loco
Já tinha visto A lista de Schindler no Brasil, logo do lançamento, quando eu era pequeno demais para ainda não dar lá muita importância para toda a temática do filme. Já se vão 11 anos! Lembro que alugamos a fita e a assistimos em casa, na casa da minha mãe, jogados no sofá e no tapete e comendo pipoca. Dormi em vários trechos, confesso. Nem me lembrava mais que o filme é em preto e branco.

Ontem, depois de cansar da internet, fui comer algo. Passei pela sala e o Nahum estava assistindo o filme. Era o último trecho, a partir do fim da guerra. Legendas em hebraico, desnecessárias em cenas como aquela na qual o rabino prepara a entrada do Shabat, acendendo as velas sob olhares tortos dos alemães. Ou a do kadish rezado pelos parentes sobreviventes. Fico arrepiado só de lembrar.

Assisti daquele ponto em diante, até o final. E chorei com Yerushalaim shel zahav sendo entoada enquanto os "judeus de Schindler" caminhavam sem rumo, depois da pergunta de um deles, diante de um alemão, de "para onde vamos agora?". Depois, já em cores, no cemitério onde Schindler está enterrado, aqui em Israel, as pedras sendo colocadas em seu túmulo pelos sobreviventes.

Dá uma outra sensação ver o filme aqui. Uma outra emoção. Fiquei pensando, entre lágrimas minhas e do Nahum, que soluçava sem querer me deixar perceber, que hoje podemos assistir a esse tipo de filme tranqüilos, de certa forma, de que aquilo não se repetirá. Tranqüilos de que temos um Estado forte para nos proteger e assegurar essa tranqüilidade.

15.2.04

Es muß sein!
A quantidade de coincidências (chama-las-ei assim, chamem-nas como quiserem!) que aconteceram nessa viagem em Israel é imensa. Gente que conheci só porque estava com vontade de comer bagel, mesmo depois de ter decidido que naquele bagel não ia mais. Gente que conheci só porque carregava uma bandeira do Brasil nas costas -coisa que nunca, nunca faço. Gente que conheci porque gosto de jazz e não de heavy metal. Gente que conheci porque perdi o ônibus e peguei o seguinte. Gente que conheci porque fui ver um filme brasileiro numa universidade de Tel Aviv. Gente que conheci porque acordei atrasado num albergue, escutei um cara falar espanhol e puxei papo...

Não sei mais porque comecei a dizer isso, mas já está dito. Vou deixar aqui. Vai que por alguma coincidência, ou porque Es muß sein, tem que ser assim, algo acontece...! Nunca se sabe... Não teria graça se soubéssemos!

Adendo
É fácil me conhecer. Precisa do seguinte: 1) ler meu blog de cabo a rabo, ou pelo menos alguns posts, como esse; 2) assistir a Albergue espanhol quatro vezes, até cansar; 3) ver, uma vez só, e sozinho, My life without me; 4) ler com lapiseira na mão A insustentável leveza do ser, de Milan Kundera, duas vezes. Pronto. Sou muito transparente!

Mas convém me conhecer pessoalmente.

14.2.04

Mezeg avir
Chove torrencialmente em Tel Aviv -acho que em todo o país, para falar a verdade! Venta muito, muito mesmo, a ponto de derrubar as folhas das árvores. Não dá coragem de sair de casa...! A previsão para hoje à noite é de neve em Jerusalém... E eu estou em Tel Aviv, pena. Vou perder o "show"! Ano passado eu já tinha voltado para o Brasil quando nevou em Jerusalém. O The Jerusalem Post publicou lindas fotos da cidade de ouro recolorida, branquinha!

13.2.04

Nostalgia, aqui me tens de regresso
Faltam nada menos que 11 dias para eu voltar para o Brasil. E nada mais que 21 semanas para eu fazer aliah. Incrível como, de certas perspectivas, o tempo parece relativo. E é mesmo. Estou curtindo um momento nostalgia duplo -o de ao mesmo tempo estar morrendo de saudade dos meus amigos e da minha família no Brasil por estar há quase dois meses longe e por saber que em quatro meses estarei longe "de vez".

Por isso, aceito qualquer demonstração de carinho na minha volta, o que inclui festas surpresas de recepção no aeroporto, às 6 e meia da manhã da quarta-feira de cinzas, aparecerem sem avisar na minha casa na Vila Olímpia para tomar um café (não, isso é muito israelense: uma cerveja, sei lá!), convites para cinemas, festas, baladas, passeios etc. Enfim, só não vale me deixarem em casa em nenhum fim-de-semana!!

Durante a semana, contudo, serei todo dedicado à Universidade Metodista de São Paulo -afinal volto só por isso, racionalmente (emocionalmente pelo que acabei de dizer...). Preciso, embora estejam tentando me atrapalhar por lá quanto podem, acabar esse curso até o dia 23 de junho, de qualquer forma. E dia 15 de julho, se D-s quiser, começa minha vida israelense...!

Enfim, acompanhem comigo a contagem. Onze dias pra chegar, 153 para partir! E Shabat Shalom, nesta sexta-feira 13!

Pequenos prazeres -série virtuais
Lembro-me como se fosse hoje quando a diretora da revista para a qual eu trabalhava, nos idos de 1998, me chamou na sala dela para mostrar a descoberta que tinha feito -coisa que eu, notívago navegante de internet, desconhecia, também. Ela me mostrava o Google.

Colocou o nome dela, o do marido dela, editor da revista, e descobriu várias coisas. Era o primeiro sistema de buscas em que podíamos, dizia ela, achar informações sobre nós mesmos. Coloquei meu nome e chegaram vários resultados, me impressionando e assustando. E ainda não existiam recursos como a busca de imagens, de sites referentes etc etc etc...

Daquele dia em diante, até hoje, não uso outro sistema de busca! E estou bem satisfeito. Li dia desses esta notícia na BBC Brasil. Não podia dar outra!