Tironut
Tenho hoje, em Ashkelon, uma cerimônia de fim da tironut, o período de três semanas de treinamento de quem entra no Exército israelense. Uma amiga minha, Chen, que é israelense e mora em Ra'anana, me convidou! Fiquei super emocionado com a lembrança! Ouvi falar que essa cerimônia é linda! Depois conto!
Baseado em fatos reais...
Diretamente de 31.78/35.22, mais conhecida como Jerusalém, escrevo para quem quiser ler - um pouco da vida e do dia-a-dia de um sujeito perdido em Israel.
28.1.04
26.1.04
Sofrut
Concentração, dedicação e temência a D-s. Em linhas gerais é disso que uma pessoa precisa, além de seis meses a um ano de estudos, para virar sofer stam, como o que eu entrevistei em Beitar Illit nos dois últimos dias. Com uma vantagem: ele é brasileiro, de Belém, e muito carismático e didático. Como qualquer profissional, tem que gostar do que faz -e Isaac Benzecry, esse é seu nome, gosta.
"Sofer" significa escriba. "Stam" é uma dessas abreviaturas difíceis de aprender no hebraico: refere-se a sefer Torá, tefilin e meguilá ou mezuzá, exatamente aquilo que o profissional de sofrut (escrita) redige.
Isso tudo eu aprendi com Benzecry e é o que vai rechear minha segunda matéria, para a Revista 18. O mais interessante não foi só ter acompanhado Benzecry, mas ter estado no lugar dele, tentando escrever nos pergaminhos e com a pena -conforme a tradição multimilenar- e costurando um sefer Torá nos seus rolos.
As fotos, no álbum, denunciam! Por alguns instantes, trocamos de profissão, já que temos tarefas tão parecidas: ele ia para trás do bloco e da caneta e eu, para a mesa com a pena e os pergaminhos.
A cada dia as descobertas que eu faço da minha própria religião me fascinam mais e mais.
Ah...
Coincidências não existem à toa. Elas estão lá para dizer alguma coisa, seja na exibição de um filme, seja num ônibus. O negócio é entender o recado. Ou querer entender...
Concentração, dedicação e temência a D-s. Em linhas gerais é disso que uma pessoa precisa, além de seis meses a um ano de estudos, para virar sofer stam, como o que eu entrevistei em Beitar Illit nos dois últimos dias. Com uma vantagem: ele é brasileiro, de Belém, e muito carismático e didático. Como qualquer profissional, tem que gostar do que faz -e Isaac Benzecry, esse é seu nome, gosta.
"Sofer" significa escriba. "Stam" é uma dessas abreviaturas difíceis de aprender no hebraico: refere-se a sefer Torá, tefilin e meguilá ou mezuzá, exatamente aquilo que o profissional de sofrut (escrita) redige.
Isso tudo eu aprendi com Benzecry e é o que vai rechear minha segunda matéria, para a Revista 18. O mais interessante não foi só ter acompanhado Benzecry, mas ter estado no lugar dele, tentando escrever nos pergaminhos e com a pena -conforme a tradição multimilenar- e costurando um sefer Torá nos seus rolos.
As fotos, no álbum, denunciam! Por alguns instantes, trocamos de profissão, já que temos tarefas tão parecidas: ele ia para trás do bloco e da caneta e eu, para a mesa com a pena e os pergaminhos.
A cada dia as descobertas que eu faço da minha própria religião me fascinam mais e mais.
Ah...
Coincidências não existem à toa. Elas estão lá para dizer alguma coisa, seja na exibição de um filme, seja num ônibus. O negócio é entender o recado. Ou querer entender...
25.1.04
Troca
Devia estar dormindo agora. Amanhã tenho que estar em Jerusalém, para começar a cuidar da minha segunda matéria, às 10h da manhã. Já são 4h30 nos relógios do Oriente Médio. Estarei lá, sim -não vou dormir, senão não acordo! Mas estou na internet, navegando, vendo emails, falando com amigos no MSN. Navegar é preciso, viver não é preciso!
Chegou, entre muitos outros, email do Nahum, com o texto que vai sair amanhã no Último Segundo do iG. Li e fui correndo ao Ha'aretz. A matéria de capa do site conta a história.
Em resumo: Israel e o Hizbolá fizeram um acordo de troca de prisioneiros... Não me parece muito justa e bem menos lógica. Israel vai receber um sujeito vivo e três mortos. Virão eu um avião alemão. Os mortos serão recebidos com honras militares. O vivo chega e nada... Em troca, vão de volta para seus países (muitos dos quais na lista dos indesejados do mundo civilizado) mais de 400 prisioneiros que estão em cadeiras israelenses.
Queria entender a lógica disso, no final das contas. Fica me parecendo que Israel troca mortos israelenses por alguns muitos prisioneiros árabes, criminosos, para colocá-los nas ruas e gerar mais mortos israelenses. É muito ilógico! Não entendo mesmo.
Devia estar dormindo agora. Amanhã tenho que estar em Jerusalém, para começar a cuidar da minha segunda matéria, às 10h da manhã. Já são 4h30 nos relógios do Oriente Médio. Estarei lá, sim -não vou dormir, senão não acordo! Mas estou na internet, navegando, vendo emails, falando com amigos no MSN. Navegar é preciso, viver não é preciso!
Chegou, entre muitos outros, email do Nahum, com o texto que vai sair amanhã no Último Segundo do iG. Li e fui correndo ao Ha'aretz. A matéria de capa do site conta a história.
Em resumo: Israel e o Hizbolá fizeram um acordo de troca de prisioneiros... Não me parece muito justa e bem menos lógica. Israel vai receber um sujeito vivo e três mortos. Virão eu um avião alemão. Os mortos serão recebidos com honras militares. O vivo chega e nada... Em troca, vão de volta para seus países (muitos dos quais na lista dos indesejados do mundo civilizado) mais de 400 prisioneiros que estão em cadeiras israelenses.
Queria entender a lógica disso, no final das contas. Fica me parecendo que Israel troca mortos israelenses por alguns muitos prisioneiros árabes, criminosos, para colocá-los nas ruas e gerar mais mortos israelenses. É muito ilógico! Não entendo mesmo.
24.1.04
23.1.04
Intenso, sonhador
Love is a decision, not a feeling
Devia contar aqui, agora, algo sobre Israel, sobre o que estou vendo e vivendo. Mas faço uma pausa nos meus relatos de observador atento. Além de observar, eu sinto. Quero, por isso, escrever algo sobre intensidade. Estive falando sobre esse assunto bastante nos últimos dois dias.
Antes disso, contudo, tenho 25 anos! Mas o nome do blog vai continuar sendo o mesmo. Não quero mudar, ele tem um sentido especial para mim! Quando eu for velhinho, e se até lá eu seguir viciado nessa brincadeira, vou me lembrar da idade que foi tão especial para mim -ou quando tudo começou...!
Outra coisa: ontem, dia de apagar velas, dei um presente a Israel. Pela segunda vez aqui, doei sangue. E ganhei um presente inusitado -um sujeito, no momento que eu entrei em um ônibus a caminho da casa de uma amiga, em Jerusalém, ofereceu para pagar a minha passagem. E pagou!
Mais uma coisa, antes do tema: está ventando muito em Israel esses dias. As pessoas nem ligam mais de andar na chuva com o guarda-chuva virado! Mas às vezes é de arrepiar a espinha o barulho que o vento faz tentando passar, de lado, pelas frestas das janelas. Estou cercado de janelas!
Sobre intensidade, então, alguns comentários. Há pessoas que gostam e sabem viver a vida. Eu sou uma delas, confesso, longe da modéstia. Gosto de ter o carpe diem como princípio, como lema. Muitas vezes me arrependo por isso. Mas também sou daqueles que preferem se arrepender pelo que fizeram e não por aquilo que deixaram de fazer porque tiveram medo.
Sou muito sonhador, também. "Idealista" seria melhor termo. Sonho com os pés no chão: tenho ideais. E admiro as pessoas que, como eu, sabem o que querem da vida para o segundo seguinte -e não para dentro de 50 anos... Ou então aqueles que têm alguma vaga e remota idéia sobre onde querem chegar -mas que não se importam com os caminhos até lá.
Por outro lado, de verdade me incomodam pessoas que não vivem intensamente e não sonham... Era isso.
Shabat Shalom. É difícil não sentir o Shabat aqui. Ótimo! Fiquei em Tel Aviv, sozinho, para poder me concentrar no meu trabalho. Não tem coisa melhor, apesar da aparente contradição!
UPDATE
Até encontrei uma pizzaria aberta e, como está ventando muito lá fora, pedi para entregarem. Fiz todo o pedido em hebraico. Arrastado, é verdade, mas foi em hebraico! Demora 40 minutos! Comida é outro assunto que tem que ser bem tratado no Shabat!
Love is a decision, not a feeling
Devia contar aqui, agora, algo sobre Israel, sobre o que estou vendo e vivendo. Mas faço uma pausa nos meus relatos de observador atento. Além de observar, eu sinto. Quero, por isso, escrever algo sobre intensidade. Estive falando sobre esse assunto bastante nos últimos dois dias.
Antes disso, contudo, tenho 25 anos! Mas o nome do blog vai continuar sendo o mesmo. Não quero mudar, ele tem um sentido especial para mim! Quando eu for velhinho, e se até lá eu seguir viciado nessa brincadeira, vou me lembrar da idade que foi tão especial para mim -ou quando tudo começou...!
Outra coisa: ontem, dia de apagar velas, dei um presente a Israel. Pela segunda vez aqui, doei sangue. E ganhei um presente inusitado -um sujeito, no momento que eu entrei em um ônibus a caminho da casa de uma amiga, em Jerusalém, ofereceu para pagar a minha passagem. E pagou!
Mais uma coisa, antes do tema: está ventando muito em Israel esses dias. As pessoas nem ligam mais de andar na chuva com o guarda-chuva virado! Mas às vezes é de arrepiar a espinha o barulho que o vento faz tentando passar, de lado, pelas frestas das janelas. Estou cercado de janelas!
Sobre intensidade, então, alguns comentários. Há pessoas que gostam e sabem viver a vida. Eu sou uma delas, confesso, longe da modéstia. Gosto de ter o carpe diem como princípio, como lema. Muitas vezes me arrependo por isso. Mas também sou daqueles que preferem se arrepender pelo que fizeram e não por aquilo que deixaram de fazer porque tiveram medo.
Sou muito sonhador, também. "Idealista" seria melhor termo. Sonho com os pés no chão: tenho ideais. E admiro as pessoas que, como eu, sabem o que querem da vida para o segundo seguinte -e não para dentro de 50 anos... Ou então aqueles que têm alguma vaga e remota idéia sobre onde querem chegar -mas que não se importam com os caminhos até lá.
Por outro lado, de verdade me incomodam pessoas que não vivem intensamente e não sonham... Era isso.
Shabat Shalom. É difícil não sentir o Shabat aqui. Ótimo! Fiquei em Tel Aviv, sozinho, para poder me concentrar no meu trabalho. Não tem coisa melhor, apesar da aparente contradição!
UPDATE
Até encontrei uma pizzaria aberta e, como está ventando muito lá fora, pedi para entregarem. Fiz todo o pedido em hebraico. Arrastado, é verdade, mas foi em hebraico! Demora 40 minutos! Comida é outro assunto que tem que ser bem tratado no Shabat!
21.1.04
Cigano
Como é que você pode/ viver indo embora/ sem se despedaçar? (ZD)
Sabe quando você está em um avião, numa longa viagem? Você não está nem cá, nem lá. Já saiu, mas ainda não chegou. O relógio não dá a hora certa, ficou parado no horário da origem ou já foi ajustado para o do destino... Assim eu me sinto! Como um cigano, que não faz parte de nenhum lugar. "Estou" cigano.
Explico: estou, aqui em Israel, em casa. Sinto-me assim, pertinente. Passeio pelas ruas com a tranqüilidade de quem as conhece não como um turista, que vaga olhando tudo com espanto e surpresa, mas com a certeza de saber por onde vou, embora o idioma, a sinalização, as pessoas etc sejam estranhos. Só que não faço parte daqui. Tratam-me, claro, como turista que sou -ainda que eu me esforce para não parecer!
Em um mês, pouco mais, volto pro Brasil. E de lá já não me sinto parte -sinto dizer. Ao contrário do que acontece aqui, ando nas ruas de São Paulo assustado, ameaçado, amedrontado. Na medida do possível 'tá dando pra se viver, na cidade de São Paulo... Mas, é muita ironia, tenho que voltar pra lá. E não quero, não quero mesmo. Mas preciso, eu sei. E volto, claro.
Mas estou em um avião. A caminho de Israel, numa viagem que mais parece de navio (de tapete voador, talvez...). Já saí, em pensamento, do Brasil. Faz tempo. Lá, quem me conhece, sabe que eu quero partir. Aqui, idem, sabem que eu quero vir. Mas sabem também que eu não cheguei... "Estou" cigano. Estou em um avião que não chega.
E amanhã faço 25 anos...
Se você vai por muito tempo,/ você nunca volta.../
Você retorna, você contorna,/ mas não tem volta.../ Volta...
(Zélia Duncan)
Como é que você pode/ viver indo embora/ sem se despedaçar? (ZD)
Sabe quando você está em um avião, numa longa viagem? Você não está nem cá, nem lá. Já saiu, mas ainda não chegou. O relógio não dá a hora certa, ficou parado no horário da origem ou já foi ajustado para o do destino... Assim eu me sinto! Como um cigano, que não faz parte de nenhum lugar. "Estou" cigano.
Explico: estou, aqui em Israel, em casa. Sinto-me assim, pertinente. Passeio pelas ruas com a tranqüilidade de quem as conhece não como um turista, que vaga olhando tudo com espanto e surpresa, mas com a certeza de saber por onde vou, embora o idioma, a sinalização, as pessoas etc sejam estranhos. Só que não faço parte daqui. Tratam-me, claro, como turista que sou -ainda que eu me esforce para não parecer!
Em um mês, pouco mais, volto pro Brasil. E de lá já não me sinto parte -sinto dizer. Ao contrário do que acontece aqui, ando nas ruas de São Paulo assustado, ameaçado, amedrontado. Na medida do possível 'tá dando pra se viver, na cidade de São Paulo... Mas, é muita ironia, tenho que voltar pra lá. E não quero, não quero mesmo. Mas preciso, eu sei. E volto, claro.
Mas estou em um avião. A caminho de Israel, numa viagem que mais parece de navio (de tapete voador, talvez...). Já saí, em pensamento, do Brasil. Faz tempo. Lá, quem me conhece, sabe que eu quero partir. Aqui, idem, sabem que eu quero vir. Mas sabem também que eu não cheguei... "Estou" cigano. Estou em um avião que não chega.
E amanhã faço 25 anos...
Se você vai por muito tempo,/ você nunca volta.../
Você retorna, você contorna,/ mas não tem volta.../ Volta...
(Zélia Duncan)
20.1.04
Nasceu
Nasceu! Meu primeiro filho israelense! E é um menino! Um texto, lindo, com quatro quilos (páginas), que deu um puta trabalho e consumiu todo o dia para o parto. Valeu a pena. Vejamos agora o que vai dizer a editora...! A matéria deve sair na próxima edição da revista Possível, em fevereiro. Aguardem! Preciso cuidar das fotos...!
Nasceu! Meu primeiro filho israelense! E é um menino! Um texto, lindo, com quatro quilos (páginas), que deu um puta trabalho e consumiu todo o dia para o parto. Valeu a pena. Vejamos agora o que vai dizer a editora...! A matéria deve sair na próxima edição da revista Possível, em fevereiro. Aguardem! Preciso cuidar das fotos...!
Um pouco de poesia
No quiero paz, no hay paz,
quiero mi soledad.
Quiero mi corazón desnudo
para tirarlo a la calle,
quiero quedarme sordomudo.
Que nadie me visite,
que yo no mire a nadie,
y que si hay alguien, como yo, con asco,
que se lo trague.
Quiero mi soledad,
no quiero paz, no hay paz.
(Jaime Sabines)
Vivência e leitura
Uma pessoa vive, viaja, conhece culturas e pessoas diferentes, aprende. Uma outra pessoa lê, viaja apenas entre as páginas de livros, mas igualmente conhece culturas diferentes, aprende. A primeira tem o tempero para a vida. A segunda, a farinha do bolo. Sem farinha não há bolo. E ninguém come tempero sozinho.
No quiero paz, no hay paz,
quiero mi soledad.
Quiero mi corazón desnudo
para tirarlo a la calle,
quiero quedarme sordomudo.
Que nadie me visite,
que yo no mire a nadie,
y que si hay alguien, como yo, con asco,
que se lo trague.
Quiero mi soledad,
no quiero paz, no hay paz.
(Jaime Sabines)
Vivência e leitura
Uma pessoa vive, viaja, conhece culturas e pessoas diferentes, aprende. Uma outra pessoa lê, viaja apenas entre as páginas de livros, mas igualmente conhece culturas diferentes, aprende. A primeira tem o tempero para a vida. A segunda, a farinha do bolo. Sem farinha não há bolo. E ninguém come tempero sozinho.
19.1.04
Papas na língua
Aprendi hoje uma lição que todo jornalista deveria saber. Para entender o que vai pela mente de um povo há que se ouvir suas crianças. Eu conversei hoje algumas crianças, árabes e judias, de 13 anos, e ouvi coisas de sensacionais a surpreendentes, de assutadoras a animadoras. Aprendi a lição na marra. Não me arrependo.
Fui acompanhar de perto um projeto do Givat Haviva, do qual falei aqui outro dia, de juntar alunos de várias idades em escolas árabes e judaicas de Israel. Se vai funcionar, se vai ajudar a diminuir o preconceito e a derrubar paradigmas, ninguém sabe. Nem eu, nem as crianças que eu ouvi, nem mesmo os profissionais que se dedicam a isso. Mas a semente está sendo plantada.
Ouvir crianças é importante porque elas não têm papas na língua, como se diz. Falam tudo, o que pensam, sem barreiras, sem medo, sem inibição e com sentimento. É verdade, eu bem notei hoje, que crianças judias falam mais e têm mais o que dizer do que as crianças árabes. Pode ser uma questão cultural, de educação -mas também pode ser só recato. Duvido desta última possibiidade, contudo.
Cercado de crianças, com bloco e caneta na mão, ouvi coisas como uma que marcou muito. Elas também me entrevistaram, é verdade. Criança é curiosa por definição, também. E perguntaram se eu sou judeu. E uma delas, lá no meio, uma das mais falantes, perguntou se eu acredito em D-s. Eu disse que sim. Disse "betach!", na verdade, que quer dizer "claro!".
Ela respondeu, com a simplicidade própria de uma adolescente -e uma adolescente israelense não tem nada de diferente de uma adolescente brasileira (a não ser a mania de celular na mão e da calcinha sempre aparecendo)- que ela não. Perguntei a razão. E ela me derrubou: "com tantas crianças inocentes morrendo aqui, como pode existir um deus"?
Agora preciso transformar tudo isso e tudo que vi ontem na sede do Givat Haviva -não foi pouco, passei o dia todo lá- em um texto de quatro páginas para a revista Possível. A verdade é que eu poderia escrever um livro a respeito!
Quote
Quando foi a última vez que você fez algo pela primeira vez?
Aprendi hoje uma lição que todo jornalista deveria saber. Para entender o que vai pela mente de um povo há que se ouvir suas crianças. Eu conversei hoje algumas crianças, árabes e judias, de 13 anos, e ouvi coisas de sensacionais a surpreendentes, de assutadoras a animadoras. Aprendi a lição na marra. Não me arrependo.
Fui acompanhar de perto um projeto do Givat Haviva, do qual falei aqui outro dia, de juntar alunos de várias idades em escolas árabes e judaicas de Israel. Se vai funcionar, se vai ajudar a diminuir o preconceito e a derrubar paradigmas, ninguém sabe. Nem eu, nem as crianças que eu ouvi, nem mesmo os profissionais que se dedicam a isso. Mas a semente está sendo plantada.
Ouvir crianças é importante porque elas não têm papas na língua, como se diz. Falam tudo, o que pensam, sem barreiras, sem medo, sem inibição e com sentimento. É verdade, eu bem notei hoje, que crianças judias falam mais e têm mais o que dizer do que as crianças árabes. Pode ser uma questão cultural, de educação -mas também pode ser só recato. Duvido desta última possibiidade, contudo.
Cercado de crianças, com bloco e caneta na mão, ouvi coisas como uma que marcou muito. Elas também me entrevistaram, é verdade. Criança é curiosa por definição, também. E perguntaram se eu sou judeu. E uma delas, lá no meio, uma das mais falantes, perguntou se eu acredito em D-s. Eu disse que sim. Disse "betach!", na verdade, que quer dizer "claro!".
Ela respondeu, com a simplicidade própria de uma adolescente -e uma adolescente israelense não tem nada de diferente de uma adolescente brasileira (a não ser a mania de celular na mão e da calcinha sempre aparecendo)- que ela não. Perguntei a razão. E ela me derrubou: "com tantas crianças inocentes morrendo aqui, como pode existir um deus"?
Agora preciso transformar tudo isso e tudo que vi ontem na sede do Givat Haviva -não foi pouco, passei o dia todo lá- em um texto de quatro páginas para a revista Possível. A verdade é que eu poderia escrever um livro a respeito!
Quote
Quando foi a última vez que você fez algo pela primeira vez?
17.1.04
16.1.04
Descanso
D-s criou os céus e a Terra, o dia e a noite,
as plantas e os animais e, assim por diante,
durante cada dia até chegar no sexto dia.
(...)
E ao final do sexto dia criou D-s o sétimo, o
Shabat, para o homem descansar.
O Shabat tem, para mim, um sabor especial. No Brasil, cada sexta-feira é dia de ir à sinagoga (coisa que eu nunca conseguiria fazer em qualquer outra ocasião), de rezar ouvindo de olhos fechados o chazan (cantor litúrgico) entoando as rezas do descanso, e de encontrar as pessoas que se perdem durante a semana.
É verdade que os meus shabatot estão longe do que eu considero ideal (mas sempre estão distantes os nossos ideais!). O meu ideal para o dia do descanso é passá-lo em família, com agitação contraditória, comida da avó, fofocas sobre os primos, revelações de última hora. E, depois disso tudo, esmoecer cansado diante das velas que resistem e parecem só se apagar sob mágica...
Em Israel, contudo, o gosto do Shabat é diferente, mais "amargazedo", o gosto da imposição religiosa minoritária sobre uma maioria laica. É assim, se tratando de um Estado religioso, afinal. Durante o Shabat a rotina do país muda radicalmente. Tudo fica mais lento, mais silencioso, mais calmo.
Não reclamaria se, claro, tivesse um carro e não precisasse depender, para ir e vir, de condução pública -que pára entre a primeira estrela da sexta e a primeira do sábado. Ou se eu tivesse já o costume de me preparar para o descanso que eu mesmo não faço... Ou se eu não ficasse, no dia que é importante para quem o segue, largado na cidade laica e urbanóide -coisa que não combina com o Shabat.
Mas eu não reclamo, mesmo assim. Shabat é um dia especial.
as plantas e os animais e, assim por diante,
durante cada dia até chegar no sexto dia.
(...)
E ao final do sexto dia criou D-s o sétimo, o
Shabat, para o homem descansar.
O Shabat tem, para mim, um sabor especial. No Brasil, cada sexta-feira é dia de ir à sinagoga (coisa que eu nunca conseguiria fazer em qualquer outra ocasião), de rezar ouvindo de olhos fechados o chazan (cantor litúrgico) entoando as rezas do descanso, e de encontrar as pessoas que se perdem durante a semana.
É verdade que os meus shabatot estão longe do que eu considero ideal (mas sempre estão distantes os nossos ideais!). O meu ideal para o dia do descanso é passá-lo em família, com agitação contraditória, comida da avó, fofocas sobre os primos, revelações de última hora. E, depois disso tudo, esmoecer cansado diante das velas que resistem e parecem só se apagar sob mágica...
Em Israel, contudo, o gosto do Shabat é diferente, mais "amargazedo", o gosto da imposição religiosa minoritária sobre uma maioria laica. É assim, se tratando de um Estado religioso, afinal. Durante o Shabat a rotina do país muda radicalmente. Tudo fica mais lento, mais silencioso, mais calmo.
Não reclamaria se, claro, tivesse um carro e não precisasse depender, para ir e vir, de condução pública -que pára entre a primeira estrela da sexta e a primeira do sábado. Ou se eu tivesse já o costume de me preparar para o descanso que eu mesmo não faço... Ou se eu não ficasse, no dia que é importante para quem o segue, largado na cidade laica e urbanóide -coisa que não combina com o Shabat.
Mas eu não reclamo, mesmo assim. Shabat é um dia especial.
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