17.1.04

Se foi o 501
Escrevo de Raanana, onde acabei ficando depois de vir visitar amigos porque perdi o ultimo onibus para Tel Aviv... Acontece!

16.1.04

Descanso
D-s criou os céus e a Terra, o dia e a noite,
as plantas e os animais e, assim por diante,
durante cada dia até chegar no sexto dia.
(...)
E ao final do sexto dia criou D-s o sétimo, o
Shabat, para o homem descansar.


O Shabat tem, para mim, um sabor especial. No Brasil, cada sexta-feira é dia de ir à sinagoga (coisa que eu nunca conseguiria fazer em qualquer outra ocasião), de rezar ouvindo de olhos fechados o chazan (cantor litúrgico) entoando as rezas do descanso, e de encontrar as pessoas que se perdem durante a semana.

É verdade que os meus shabatot estão longe do que eu considero ideal (mas sempre estão distantes os nossos ideais!). O meu ideal para o dia do descanso é passá-lo em família, com agitação contraditória, comida da avó, fofocas sobre os primos, revelações de última hora. E, depois disso tudo, esmoecer cansado diante das velas que resistem e parecem só se apagar sob mágica...

Em Israel, contudo, o gosto do Shabat é diferente, mais "amargazedo", o gosto da imposição religiosa minoritária sobre uma maioria laica. É assim, se tratando de um Estado religioso, afinal. Durante o Shabat a rotina do país muda radicalmente. Tudo fica mais lento, mais silencioso, mais calmo.

Não reclamaria se, claro, tivesse um carro e não precisasse depender, para ir e vir, de condução pública -que pára entre a primeira estrela da sexta e a primeira do sábado. Ou se eu tivesse já o costume de me preparar para o descanso que eu mesmo não faço... Ou se eu não ficasse, no dia que é importante para quem o segue, largado na cidade laica e urbanóide -coisa que não combina com o Shabat.

Mas eu não reclamo, mesmo assim. Shabat é um dia especial.
Shabat Shalom le culam.

15.1.04

Porta-voz
Estive ontem com um soldado israelense que trabalha no escritório do porta-voz do Exército. Preciso dizer que ele tem apenas 20 anos e tem na tzahal (o Exército israelense) posição séria e de autonomia. Tivemos um longo papo e a história dele é um tanto incomum e interessante: norte-americano da Califórnia, fez aliah e tem um perfil baixo para o Exército, porque teve na infância doença de intestino. Conclusão: não poderia ser aceito. Mas como queria, foi como voluntário mesmo -para dois anos. E lá está, numa posição que muitos (eu inclusive) querem!

ERRATA
O Michel esteve comigo e com o soldado! Faltou registrar... Na verdade a idéia de convidar o cara pra bater papo foi dele! Atendendo a pedidos e corrigindo a derrapada, eis a errata! Quem viu a foto já sabia!

Mudança de tempo
Faz calor em Israel, em pleno inverno! É verdade que não é o calor ao qual eu me acostumei vivendo aqui, no verão de quase 50 graus... Mas faz sol lá fora, ontem eu saí sem blusa e... bom, Israel tem outra cara com bom tempo!

Tem uma coisa que só se entende em Israel, a propósito: o conceito de degradê! No finzinhoi do dia, quando se caminha na rua com tempo bom como o de hoje, pode-se ver uma escala de tons de azul no céu, do mais claro perto do horizonte até o mais próximo do preto, no alto. Algo lindo, lindo.

Pequenos prazeres -série gastronomia
"Tzabar" é a marca do melhor humus que eu já comi em Israel. É vendido em supermercados e a etiqueta diz assim: "raq humus" (apenas humus). Existem diversas apresentações, mas o humus puro é o melhor. Tzabar é também o nome de uma fruta e como se chamam os israelenses: como a tal fruta, eles são espinhosos por fora e doces por dentro!

13.1.04

Sionismo e sionistas -coisas raras
Quando eu morei em Israel, entre abril e outubro de 2002, muitas coisas me chateavam entre os olim chadashim (novos imigrantes) que viviam comigo no kibutz. Era um grupo grande, de cerca de 40 pessoas. E muitos deles simplesmente não tinham vergonha de dizer que estavam no país só pelo dinheiro oferecido a quem chega -especialmente alguns russos e argentinos. Eu acreditava que não existe mais sionismo...

Hoje mesmo, quando um sujeito me perguntou a razão pela qual quero fazer aliah e ouviu que por sionismo, ele riu na minha cara...!

Mas por acaso, muito por acaso, conheci uma pessoa que me fez mudar de opinião: existe sim idealismo sionista, como o meu! Fui à Universidade de Tel Aviv para assistir à projeção de "Eu, tu, eles", que rolou depois de uma palestra (em hebraico, claro, embora 70% do público falasse português!) de um israelense especialista em Brasil...

A sionista que conheci hoje fez aliah há dez meses. Mora nas meonot (apartamentos da universidade) e estuda na mechiná (preparatório para quem pretende entrar em uma faculdade israelense). Está em Israel por idealismo mesmo, e depois do filme tivemos um longo papo sobre aliah.

Nem tudo está perdido, afinal!

Recado
Cla, Ka e Poconautas: o nome Débora Blatt lhes é familiar? É dela que eu falo neste post! Que mundo pequeno esse nosso, né? Quando a encontrar de novo vou tirar fotos para mandar pra vocês! E ela mandou beijos, disse que vai escrever!

Mero acaso
Vale a pena contar que fui ver o filme que me levou a conhecer a Débora a convite de um cara, também brasileiro, que conheci por acaso, outro dia, num ponto de ônibus quando ia para Raanana... Quando ele me perguntou algo em hebraico e eu respondi que falasse em inglês, ele perguntou de onde eu sou -e descobrimos a coincidência!

12.1.04

Promessa
Amanhã coloco fotos nos álbuns e no flog. Tenho várias delas, de Beitar Illit, daqui de Tel Aviv, de Raanana, de Jerusalém, dos meus passeios e das pessoas que encontrei por aí...

Promessa é dívida. Amanhã pago. Sem falta!

UPDATE
Dívida paga! As fotos já estão no flog israelense e no álbum que estou fazendo daqui! Coloquei algumas no álbum principal, também, de quando ainda estava no Brasil!
Fascinação
Existe um fascínio provocado pelas simples palavras "sou do Brasil", "sou brasileiro" aqui em Israel. Não importa com quem se fala: taxistas, vendedores no shuk (mercado), outros turistas, árabes e judeus. Imediatamente se lembrarão do Ronaldinho, do samba, do Carnaval e dessas coisas que quem não é brasileiro pensa que só elas existem no país tropical...

Mas existe alguém em quem essa fascinação é maior, é enorme: as etíopes. É brilho nos olhos! Existem muitos etíopes vivendo aqui, como israelenses, judeus, que vieram para cá em megaoperações, fazendo de Israel o único país que tirou negros da África não para fazê-los escravos, mas para torná-los livres...

E se, numa conversa com uma etíope, você revelar que é brasileiro, vai entender do que eu falo! Já passei por isso duas vezes. Uma delas, ano passado, doando sangue numa unidade do Maguen David Adom. Outra hoje, na tachaná mercazit de Tel Aviv, comprando uma mochila. Elas são diretas: pedem em casamento, querem ir pro Brasil, se mostram indignadas pelo fato de não estarmos casados, não termos namorada...!

Eu aceitei a proposta, hoje!

11.1.04

Sobre Jerusalem e sobre magica
Tenho ainda muitas das duvidas do post anterior. Mas tirei uma duvida que tinha: sobre a magica que eh estar em Jerusalem. Resolvi ficar por aqui mesmo depois que voltei de Beitar Illit. Fui comer uma shwarma, passear pela cidade, ver os yerushalmis (deve ser assim...!) e sentir o ar da cidade.

Mas eu nao tinha onde ficar, e isso eh sempre um problema. Entao resolvi, antes de mais nada, dar um pulo no Kotel, o Muro Ocidental, Western Wall... Uma vez, passeando pela cidade velha, fui abordado por ortodoxos que me ofereceram um lugar de graca pra ficar. Mas naquela ocasiao eu nao precisava... De repente, teria a mesma sorte.

Nao foi assim, eh verdade... Mas saindo do Kotel eu andei pelo bairro judeu e de repente ouvi musica. Muita musica, e pelo burburinho imaginei que havia muita gente. Nao me enganei e cheguei ate o Cardo, o que sobrou de uma rua que foi principal na epoca dos romanos. Cheguei no final de uma apresentacao musical. As pessoas estavam comendo pizza e recolhendo os instrumentos.

De repente, quinze ou vinte caras sairam andando e eu resolvi segui-los. Entrei em uma yeshiva, onde uns quarenta, 50 outros rapazes estudavam. Perguntei a um deles em ingles se seria possivel dormir por ali. Rapidamente ele falou com outro cara que, munido de um celular, resolveu tudo!

E a magica de Jerusalem funcionou: estou agora, quase meia-noite de segunda-feira, em uma espécie de albergue para rapazes judeus, hospedado de graca, e amanha vou acordar a metros do Kotel, para onde vou, claro, logo que acordar! Foi assim, simplesmente: ouvi musica, segui a musica, segui a multidao e fui recebido como se me conhecessem ha anos...!

Eh ou nao eh magica, afinal!?
Assim eh a vida
Tento entender algumas coisas, dentro de um onibus com janelas blindadas atravessando a fronteira entre Israel e o que um dia devera ser o Estado palestino. Estava voltando de Beitar Illit, que fica incrustrada no meio da Cisjordania. Tomei o onibus lotado de ortodoxos dentro do assentamento, e eh so la que ele para. Depois, so no destino, em Jerusalem.

No caminho, tento entender algumas coisas. Tento entender, por exemplo, por que as pessoas nao entendem a necessidade de um muro de defesa entre os dois territorios. Tento entender, ao mesmo tempo, a idiotice de precisar viver com um Exercito de Defesa. Na fronteira, cujo checkpoint provoca um congestionamento monstro, dois soldados provavelmente mais novos que eu fazem cara feia e inspecionam quem passa, um a um.

Vive-se em Israel, ou no que um dia foi amplamente chamado de "Palestina", simplesmente, com essas coisas. Vive-se bem, eh verdade, sem grandes dramas. Mas os olhos juvenis dos soldados de vez em quando falham (se nao os deles, os de qualquer outro, mais distraido, menos atento ou simplesmente mais jovem). E ai acontecem os piguim, os atentados, fatalidades.

Na entrada da tachana mercazit, a estacao central de onibus, onde estou, em Jerusalem, outra checagem, que se mal feita pode permitir a passagem de terroristas. Aqui, alem dos olhos atentos de guardas, ha o raio-X, que nao deixa nada passar. Mesmo assim, ha aglomeracoes na porta, que da pra rua, com tanta gente fugindo do frio ou em busca do onibus para voltar pra casa.

Dentro da estacao, se alguem, distraido ou mal-intencionado, esquece uma mochila, uma maleta, em poucos segundos policiais estarao de olho, e avisos pelo sistema interno de microfones tentarao localizar o dono. Se ninguem aparecer, a medida eh extrema: explode-se o objeto esquecido. Nao se pode dar chance para o azar...

A vida eh assim... E segue, com cafes cheios de gente, com a musica nostalgica produzida e ouvida em Israel, com o jeitinho israelense das garotas na rua, com o desfile colorido de soldados com seu uniforme verde, garotos novos com gel no cabelo e celular na mao, e de meninas ortodoxas com suas saias compridas. Assim eh composto o arco-iris do inverno israelense.

8.1.04

Ortodoxia
Vou amanhã, sexta-feira, para Beitar Illit, cidade localizada no meio da Cisjordânia -o que a torna um assentamento judaico em meio a território árabe. Mais que isso, Beitar Illit é cidade de judeus ultra-ortodoxos, Chabad, seguidores de todas as regras do judaísmo -como o respeito pelo Shabat, que começa amanhã por volta de 16h. Por isso vou ficar alegremente isolado até motzei Shabat, no início da noite de sábado.

Desde já Shabat Shalom. Na volta conto como foi.
Saúde em Israel: cara, mas eficiente
Conheci algo de Israel que ainda não conhecia: o sistema de saúde. Meu estado piorou e os médicos decidiram pela minha internação... E lá fui eu anteontem para uma batelada de exames e interrogatórios no Ichilov, um dos melhores hospitais de Tel Aviv.

Ontem, por fim, me internaram. É verdade que embora eu etivesse em um hospital público o atendimento é de primeira. Nada que se compare com os nossos hospitais brasileiros com pacientes pelos corredores, sujos, com atendimento precário e falta de dinheiro. Aliás, dinheiro é um tema importante quando se fala de hospitais em Israel: a saúde é muito cara...

Resumindo a história: já estou melhor (tanto que amanhã vou viajar) e passei "só" uma noite internado. Não foi a melhor noite da minha vida, mas longe de também ter sido a pior! Isso porque fiquei em uma enfermaria com outros três pacientes -todos com pelo menos o triplo da minha idade!

Quando fazia a entrevista de praxe, em hebraico, eu já na cama, a enfermeira disse que faria uma pergunta inglês e que eu não me ofendesse. Então escreveu em um pedaço de papel: are you homossexual? Respondi que não, claro, e achei graça! É que vindo do Brasil as suspeitas de vida promíscua são grandes -depois perguntaram se eu sempre uso camisinha...!

6.1.04

Compras
(Porque chamar isso de "pequenos prazeres" é sacanagem!)
Quando estava em Jerusalém comprei uma coisa muito legal: uma cueca! Bom, é claro que não se trata de uma cueca comum! Ela é do tipo boxer e vem com uma inscrição na frente:

I'M JEWISH.
WANNA CHECK?


Como pouca gente vai ter a chance de ver (e de checar...!), deixo registrada a compra aqui mesmo! Tem coisas que só em Israel, mesmo... Ah! Também comprei um moleton da minha futura universidade!

5.1.04

Vale a pena ver de novo, no ano novo
Sem medo de ser repetitivo, e por isso já sendo, vou deixar aqui o link daquele vídeo sensacional a que pudemos assistir aqui há mais ou menos seis meses. Ele tem uma história, que o Michel contou, e que reproduzo abaixo. Vale a pena ver de novo, especialmente no começo de um novo ciclo. Para ver, basta clicar com o botão direito, escolher "Salvar destino como..." e descompactar o arquivo.

A história: O real criador, produtor e editor desse vídeo se chama Cláudio Grillo Filho, e atualmente trabalha na área de comunicação e registros audiovisuais do São Paulo Futebol Clube. Ele inclusive utiliza esse vídeo no ônibus, quando o time está a caminho dos jogos. Uma curiosidade: originalmente, a idéia do vídeo era em português, e só depois acabou sendo feito em inglês. Muita gente pensa que é americano com legendas, mas na verdade isso foi proposital. Fazia parte de uma pesquisa do Cláudio, que é pesquisador na área de Psicologia da Imagem.